26 de abril de 2011

Reconstrução



Com um friozinho na barriga, mas com muita fé encaro hoje a cirurgia de reconstrução da minha mama, será às 15:30 no Hospital Dom vicente Scherer,rezem por mim!
Deus na sua infinita misericórdia nos lançou meios para que possamos apesar de todo o sofrimento sentido virarmos a página e recomeçar a nossa história. 
Neste recomeço levamos a bagagem dos aprendizados sofridos que nos fazem mais experientes e muito mais ricos de humanidade. Podemos enfim deixar para trás o velho e abraçar o novo. Tudo novo de novo.
O novo dá medo, gera insegurança, temos que reaprender a viver novamente, uma nova realidade, a covardia quer nos convencer que melhor seria deixar tudo como está, para que mexer no que não está te incomodando?
É preciso querer se incomodar para mudar, é preciso muita coragem, muito amor por si, pois Clarice Lispector já disse: "Só o que está morto não muda".
Toda mudança gera desconforto, mesmo quando é para melhor. Lembro-me bem dos primeiros anos de casada, nos mudamos 7 vezes antes de irmos finalmente para nossa casa e quando fomos, eu senti um misto de felicidade e nostalgia, felicidade porque enfim havíamos conquistado a nossa casa, nostalgia porque em cada casa que passávamos deixávamos um pouquinho das nossa vidas, nossas alegrias, nossas dificuldades, nosso amor; nestas mudanças estávamos caminhando sempre para um espaço melhor, como entender o saudosismo? Era saudade do que já tínhamos vivido.
Tem um programa de tv que se chama perder para ganhar, é um programa voltado para pessoas obesas que precisam perder peso para ganhar saúde. Fico pensando neste título e no quanto ele é inteligente, pois no jogo da vida a dinâmica se dá no ganha e perde, perde e ganha, de forma cíclica e quase lúdica. O fato é que quase nunca nos focamos no que iremos ganhar e ficamos atrelados a perda, desta forma deixamos o jogo passar...
Eu penso que viver é correr e administrar riscos, uns maiores, outros menores, mas tudo sem dúvida alguma nos fará crescer.

19 de abril de 2011

O que a cruz me ensina ...



Páscoa
Morte e Ressureição - "Eu vim para que todos tenham vida."

Estamos na semana santa e para os cristãos é uma semana de muita meditação.
Meditar a paixão de Cristo, sua morte e sua ressurreição, olhar para a vitória da cruz, sem medo.
O que será que Jesus quer me dizer quando está na cruz?
O que será que Jesus me ensina quando ressuscita?
São indagações deste momento, deste tempo santo.
A mim Jesus ensina o valor do Amor, o amor que a tudo vence inclusive a morte.
Me ensina que “cruzes” fazem parte da minha vida e é preciso carregá-las.
Me ensina que todo o sofrimento que posso sentir pode ser amparado e entendido pela sua presença sobrenatural na minha vida.
Me ensina que é possível ressuscitar para o amor e morrer para os desafetos, as mágoas, as palavras proferidas sem pensar.
Me ensina que para amar de verdade os outros é preciso querer esquecer o mal e só me lembrar do bem que me foi feito.
Me ensina que uma vida feliz é possível agora neste mundo e que o céu começa aqui.
Me ensina que julgar faz sofrer tanto e quanto a quem se julga.
Me ensina que é preciso amar a cada um como se fosse a última vez que o vemos, pode ser que seja mesmo.
Me ensina que perdoar é divino, mas desejar o perdão pode ser humano.
Me ensina que palavras são armas poderosas capazes de fazer o máximo de bem e o máximo do mal.
Me ensina que todos são bons e dignos de amor, basta que acreditemos sinceramente nisso.
Me ensina que a vida é um segundo, passa rápido e viver é uma dádiva da qual devemos agradecer constantemente.
Me ensina que dois mil anos passam em um piscar de olhos, o que sobra para 80 anos? 
Então eu vejo que o lance é ser feliz no tempo que me cabe, seja ele qual for.
Um abraço com carinho e um desejo de uma Feliz e abençoada Páscoa,

11 de abril de 2011

Dolce far niente

Eu estou aprendendo o que quer dizer a expressão italiana:  "dolce far niente", o prazer de não fazer absolutamente nada por algumas horas ou até dias.

Não precisar fazer nada, escolher ficar ouvindo uma música, mesmo quando a casa pede uma arrumação e tens horário para chegar no trabalho, a casa que espere...
Agora estou ouvindo minha música preferida e se chegar alguém aqui em casa agora me encontrará de camisola, "despenteada" e feliz. Feliz pelo prazer de estar comigo mesma, os filhos estão no trabalho ou escola o marido também  eu aqui "me curtindo".
Isso para mim é uma revolução, pois era escrava da opinião alheia, hoje algumas opiniões para mim são importantes, outras simplesmente descarto. Abri mão de agradar a todos e resolvi me agradar, a leveza que isso me traz é impressionante.
Os italianos tem essa expressão maravilhosa que reflete uma necessidade pouco atendida.
Me pergunto será por isso que eles parecem mais alegres? Mais autênticos? Mais intensos?
Descobriram o segredo da vida, que é viver cada minuto como se fosse o último?
Viver é urgente e às vezes eu perco tempo com mesquinharias,  agora vou tirar o pó da casa, cantando...

6 de abril de 2011

Transformação


É impressionante a vontade de mudança que me invade após essse processo que eu passei.
Quero mudar muitas coisas na minha vida e agora mais do que em qualquer outro momento da minha vida me sinto ansiosa e angustiada, nem o câncer me deixou tão agitada.
O processo de tratamento é uma tarefa e como tal tem que ser cumprida, me lembrava sempre do personagem  Capitão Nascimento da Tropa de Elite: "Missão dada é missão cumprida!" E assim foi, uma missão de guerra, um aparato "bélico" para vencer qualquer "bandido" que pudesse ainda estar entranhado em mim. Talvez essa relação de guerra é o que explica a minha fascinação pelo personagem Nascimento, durante o tratamento temos também que enfrentar emboscadas, colocar na parede o inimigo e temos que ter alguma fantasia para nos ajudar a enfrentar uma dura realidade, uma farda ajuda a tornar mais leve a empreitada.
Mas enfim tudo passou, mas nada voltou ao que era. Essa desacomodação nos causa um sentimento ambivalente estou muito feliz porque estou curada, mas quero uma vida mais perto da normalidade. Quero um corpo novamente inteiro e não me venham com a história de que o importante é ter saúde, sim é o essencial, mas quando a recobramos queremos todo o resto também.
Esses dias fui consultar na clínica e encontrei outras mulheres na mesma situação que eu, e elas disseram a mesma coisa:
Quero agora mudar a minha vida, vou cuidar de mim.
Porque não fazemos isso antes? me pergunto, porque não prevenir que a doença chegue?
Me senti com tanto em comum com essas mulheres, Me senti em meio a iguais.
Na verdade me consolei de que nós temos a chance ainda da transformação de fazer diferente, de estar de novo possibilitadas a recomeçar.
Recomeçar é sempre bom e sempre ruim, pois envolve a idéia de novidade, mas envolve também a idéia de insegurança.
Estou recomeçando cheia de vontade, desejos, ideias, mas também com um grande friozinho na barriga.
Fernando Pessoa já disse e eu já repeti milhares de vezes:
"Navegar é preciso,
viver não é preciso..."
Lá vou eu navegar por mares desconhecidos...

23 de março de 2011

O perfil Câncer de Mama


Andei "viajando" por outros blogs de mulheres que como eu tiveram câncer de mama e tive uma surpresa ao me identificar com cada uma delas. A identificação não vem da doença e sim da forma como se comunicam, do estilo de vida, e da maneira de pensar.
O que vou dizer agora, não tem nada a ver com nenhum fator científico são especulações minhas a respeito do tema.
Dos blogs que eu visitei, não encontrei nenhuma mulher sozinha, ou eram casadas, ou tinham namorado, a maioria é mãe, tem algumas jovens que ainda não são, mas se Deus quiser vencerão a doença e ainda serão. Tem mais de um filho, não raro três. Referem que recebem muito amor e muito apoio de marido, filhos e amigos.
Ou seja são pessoas "populares", de muitos amigos, que fazem de tudo para todos também.
Daí já viu, né? Comecei a pensar...
Quando fiquei doente, fiquei tentando achar uma explicação. Não raras vezes ouvi que o câncer é associado a depressão. Eu mesma julgava assim, acreditava que era uma forma de "suicídio inconsciente", que por alguma razão a pessoa estava com vontade de morrer.
No meu caso fiquei até bem pouco tempo buscando o motivo dessa tal vontade inconsciente e não encontrei ela em lugar nenhum. Quero muito viver e viver bem e isso não é pecado.  Somos pressionados culturalmente  a nos sentir responsáveis até pelo câncer que temos. Com certeza há um perfil, mas pasmem, é um perfil feliz, só que precisa de ajustes.
O que motiva então o câncer? Não existe uma unica causa, são muitos os fatores que agem nas nossas vidas e que fazem nosso organismo entrar em desequilíbrio. Pessoas que vivem muito para os outros e se olham pouco, que querem ajudar todos a sua volta e ajudam efetivamente, mas que em contrapartida muitas vezes não se ajudam.
Abnegação é muito bom, mas demais adoece.  O seio tem um significado muito particular para uma mulher, pois é por ele que nutrimos a vida de nossos filhos e não raro de outros bebês que necessitam de leite materno. Eu mesma há vinte e tantos anos atrás fui ama de leite de mais dois bebês que nasceram prematuros e precisavam deste leite. Eram outros tempos não tínhamos a AIDS por aí e dar o seio era uma forma de ajuda a outras mães. Sempre tive muito leite e amamentei meus filhos até os dois anos de idade, em média, uns mais outros menos. O hábito de amamentar não se restringia somente aos meus filhos, muitas vezes eu fui literalmente uma "teta" para muitos que me cercavam. Me sentia na obrigação de ajudar, de ser suporte, de dar tudo de mim.  E eis o erro: dar tudo. No meu ponto de vista nos esvaziamos tanto que falta energia para que possamos nos manter com saúde. Não raro também apesar de todos os nossos esforços em agradar a tudo e a todos nos decepcionamos quando colocamos o primeiro limite, aquele fundamental, para que continuemos vivas, somos rechaçadas e nos sentimos em desvantagem, daí para sentar no banquinho da vítima é um pulo. E se assumirmos esse papel então poderá ser o nosso fim, porque como vítimas não nos resta fazer nada a não ser posar de incompreendidas e lá se vai a oportunidade de crescer.
No meu caso perdi o seio para parar de amamentar sem critério. Hoje escolho o que eu quero nutrir. Não me sinto mais em desvantagem, consegui, com muita terapia a perceber que o que eu fiz foi válido em um determinado momento da minha vida e agora é hora de descobrir o momento de dar um beijo em mim.
Três anos seguidos, eu ouvi a mesma frase de um padre amigo e não entendia: - Filha dá um beijo em ti.
- Hoje compreendo Padre Sallet o que o senhor queria me dizer...

21 de março de 2011

Selo Stylish Blogger Award


Recebi este selo indicada por Regina Peron do Blog Poesias, Pensamentos e Prosa.
rperon.blogspot.com
Achei muito legal essa proposta, assim sabemos que o que escrevemos tem alguma relevância para a vida das pessoas.
Obrigada Regina, agradeço a tua generosidade comigo.
Agora que recebi o selo devo repassá-lo conforme as regras e retribuir aos blogs que eu acho interessantes.
Sobre especificamente este selo conforme as regras:
-Ao receber o selo deve-se repassar para 15 outros blogs
-Indicar sua postagem para esclarecimentos (como eu fiz agora)
-Comunicar os 15 escolhidos com um comentário em seus blogs
-E incluir no seu post  7 coisas sobre você.

Sete coisas sobre mim:

1. Sou cristã, católica e amo a Deus a quem atribuo toda a minha felicidade.
2. Tenho uma devoção especial por Nossa Senhora.
3. Tenho marido e filhos que são os meus grandes amores neste mundo.
4. Gosto muito de  ler e escrever.
5.  Meus amigos são meu apoio.
6. Minha vida tem trilha sonora, ou seja para cada fase da minha vida escolho uma música especial.
7. Hoje mais do que nunca valorizo a minha vida.


Os blogs que eu aprecio:
rperon.blogspot.com
cristinapaiva.blogspot.com
cakopenteados.blogspot.com
matheussieben.blogspot.com
borboletasnojasmin.blogspot.com
osolhosdocoracao-ct.blogspot.com
alexandrealana.blogspot.com
http://lucy-natureza.blogspot.com/
matandocarpinejar.blogspot.com
marciacabrita1.blogspot.com
comfeeuvou.blogspot.com

Gente achei 11 que são o que mais gosto de ver e ler.
bjs




18 de março de 2011

A cena médica


Ontem fiz minha primeira revisão pós quimioterapia, foi um alívio descobrir que está tudo bem e que já venci mais uma batalha. Fiquei feliz em rever a minha médica, as enfermeiras, a secretária, principalmente porque sou "mui" bem recebida e isso conta muito e porque cheguei somente para uma consulta de rotina (graças a Deus , sem surpresas). Essa rotina será bem frequente na minha vida e não dá para fugir nem mesmo enjoar dela, é preciso cuidado e atenção redobrados para que o câncer não volte.
Porém até chegar a consulta de ontem percorri um caminho que eu acredito ainda é um tanto desumano, apesar de toda a evolução da medicina e de muitos processos de humanização dos atendimentos, ainda vejo estas cenas como algo angustiante.
Acho que realizei uns 10 exames, que são absolutamente necessários e faria mais uns 20 se preciso fosse. Porém ao realizar os exames vejo que o ambiente em que permanecemos a espera, o tira roupa, bota roupa, os instrumentos que invadem nosso corpo são inevitavéis porém extremamente invasivos e desagradáveis.
Daí sonho e fantasio que um dia, quem sabe, teremos um aparelho capaz de ler pela digital toda a nossa história e saúde. Porém vejo que no momento não há espaço para a  fantasia e tenho então que encarar a maratona de exames com racionalidade focando no essencial: eu preciso fazer para prevenir a reincidência da  doença.
O que poderia ser feito para minimizar o desconforto destes momentos?
Na verdade acho que é preciso investir nas pessoas, em educação, é preciso desenvolver uma cultura de "cuidadores", investir para que as pessoas sejam habilitadas a encararem o paciente com carinho e afeto que merecem neste momento ímpar das suas vidas. É preciso que os profissionais  não se surpreendam tanto, afinal o câncer é uma das doenças mais "populares" do momento; Que haja interesse, mas não pena. Não há nada pior que o olhar de pena.
Em muitos locais é assim que ocorre, em outros há muito o que ser feito. Em todos os casos é sempre possível fazer um algo a mais para minimizar o sofrimento que hoje é meu, mas amanhã não saberemos de quem será e espero sinceramente que esse não seja um sofrimento seu.


8 de março de 2011

Mulher cheia de vida


Dia 8 de março é o dia internacional da Mulher...
Hoje eu quero fazer uma homenagem para uma mulher muito especial...
Eu conheço essa mulher há muito tempo, convivo com ela diariamente, 24 horas por dia de forma ininterrupta.
E eu a admiro muito.
É verdade que às vezes nem tanto.
É uma relação do tipo: amor e ódio.
Eu tenho olhado ela nos olhos todos os dias e vejo através desse olhar muitas coisas.
Todos os dias ela me encanta, me desaponta, me surpreende. Às vezes eu não tenho idéia de como ela vai reagir e acho que isso é que faz dela uma pessoa tão especial, ela é imprevisível, por mais previsível que sejam seus atos.
É uma mulher que encara as situações de frente, que não dá as costas aos problemas e não acha um problema tê-los.
É uma mulher afetuosa, uma mulher que ama muito, uma mãe exigente, uma pessoal leal a tudo que a rodeia.
Uma mulher que briga, que tem opinião, que pede colo e exige atenção, tudo em nome do amor, mas na mesma medida com que exige se entrega às relações confiante que "tudo vale a pena se alma não é pequena"...
É uma mulher que gosta de ser inteira, que não aprecia meias verdades, meios motivos, aliás meio nada...
Por ser inteira, não gosta de nada pela metade, vive tudo completa. Não gosta dessa história de metade, é inteira em tudo. Acredita na completude do ser humano, acredita que se somos a imagem e semelhança de Deus, somos perfeitos, inteiros.
Apesar disso não se julga autosuficiente pelo contrário, ela tem a sabedoria que permite precisar dos outros e de muitos outros na sua vida. Gosta de pessoas, de muitas pessoas e de muitos jeitos de ser...
Adora uma conversa.
Adora casa cheia,
Adora muitos filhos, muitos amigos, muito tudo...
Na verdade ama o plural.
Essa intensidade já a salvou várias vezes...
E hoje eu quero dizer a ela o quanto eu a admiro pela força, pela garra, pela fé e principalmente pela coragem. A coragem de vencer seus medos e abrir mão da velha vida e apreciar uma nova, por mais doloroso que isso tenha sido e ainda o é.
Aprecio-a por ter escolhido entre 100, os cinquenta melhores motivos para continuar vivendo feliz.
Sim acredito que temos 50 motivos para sermos felizes e 50 motivos para sermos infelizes, a graça está em escolher a melhor parte.
Eu a admiro porque conseguiu passar por tudo sem "pirar muito na batatinha", enlouqueceu só o necessário para continuar sã.
Eu a amo porque ela está viva e deixando toda a vida pulsar dentro dela de forma intensa e serena...
Viva mulher, viva!

4 de março de 2011

Os Afetos



Esses dias vi um filme, muito legal, se chama: "As coincidências do amor", a frase inicial já me cativou de cara, o personagem inicia dizendo: "tudo o que precisamos na vida é de afeto." Adorei. mas pensei: que afeto? Qualquer afeto penso eu. as pessoas nos cativam quanto mais afetivas elas são, pelo menos para mim é assim. Sou uma pessoa muito afetuosa, gosto de abraços, beijos e demonstrações concretas de carinho. Eduquei meus filhos usando muitas vezes a terapia do abraço e agora os vejo adultos ou quase, com a mesma necessidade de quando eram bebês. Esses dias tive que dar um "colo" ao meu menino de 21 anos, senti que naquele momento o meu aconchego poderia aplacar um pouco o sofrimento pelo qual ele estava passando, ah as desilusões amorosas, as escolhas, como são sofridas. Um colinho sempre cai bem, não importa a idade que tenhamos, precisamos às vezes pedir colo e às vezes dar. E não é tão fácil como imaginamos, talvez com a correria cotidiana os laços de amor fiquem um pouco "frouxos" e se crie um abismo, entre os amores, seja marido e mulher, namorados, filhos com seus pais, amigos. Depois de criado o abismo é difícill retomar as demonstrações de carinho.

Por isso se tens algo a dizer, hoje é o dia, o momento é agora... Use o telefone, ou passe um e-mail, ou vá pessoalmente abraçar e dizer a quem te importa o quanto é grande o teu AMOR!!!

19 de fevereiro de 2011

De Piruá à Pipoca ...


Na manhã de sexta feira quando acordei, tinha uma lua parecida com esta no caminho que fiz até o centro da cidade. Foi o primeiro dia de algo novo na minha vida: o Projeto Piruá. Confesso que foi um dia muito feliz do início ao fim, estou indo fazer aquilo que eu mais gosto que é trabalhar as questões humanas e as suas transformações. Descobri que para permanecer pipoca necessitamos de muito empenho, senão lá estamos nós "piruás" de novo...
Piruá para quem ainda não entendeu é aquele milho que não estourou, não virou pipoca, mesmo passando pelo fogo. Aquele milho que se recusou a ser "cambiado".
Quanto a mim estou lutando para continuar pipoca.
Quanto a minha amiga, também é uma pipoca e daquelas as quais causam em nós admiração.
O projeto Piruá nasceu desta transformação que passei e da transformação pela qual minha amiga e parceira no projeto também passou.
 O objetivo deste trabalho é levar aos educadores, aos profissionais da saúde, aos casais, às mulheres, um momento de auto-cuidado, de se olhar, de se perceber e de se resignificar a partir das próprias experiências sejam elas boas ou ruins.
O primeiro encontro foi muito legal e terminamos o dia com a sensação maravilhosa de missão cumprida.
Acredito que esse trabalho me ajudará muito, pois olhando as experiências de vida de outras pessoas, vejo que eu posso crescer como pessoa.
Daí pensei que a minha vida passou pelo fogo durante quase um ano, e eu virei uma "pipoquinha", agora eu preciso ajudar a estourar milhos por aí, lutar para que os momentos "piruás", sejam mais raros dos que os momentos pipoca, primeiro na minha vida e depois na vida dos outros.
Cheia de desafios, com uma energia grande para o trabalho e muita vontade de viver é assim que hoje me sinto.
Obrigada meu Deus, pelo fogo, sem ele, não teria virado Pipoca.

11 de fevereiro de 2011

Luzes e sombras


Ando muito ligada no que está acontecendo no meu dia. estou atenta ao que falo, ao que escuto e descobrindo aos 42 anos, nunca é tarde, como é que o mundo gira. Antes eu achava que ele girava conforme a minha vontade e aí está o meu maior defeito, o chefão dos meus pecados: o orgulho. Pensava que todo mundo iria torcer por mim, iria rezar para que eu ficasse bem enfim me achava uma unanimidade. Que louca!
que orgulhosa, eu achava que podia escolher olhar o mundo e não ver certas imperfeições, acreditava na liberdade total do ser humano de escolher entre o bem e o mal. Escolhas que não são simples, muitas vezes o que julgamos bem pode ser o mal para alguém. Então, de novo penso, que há muito o que  ver e aprender.
Tudo isso para dizer que alguns tipos de pessoas tem me incomodado muito. Por exemplo: as pessoas queixosas que fazem seus dramas maiores do que são, estou sem paciência nenhuma para essa gente, desculpem, é até politicamente incorreto admitir, mas não tenho mais vocação para aguentar quem não se aguenta. De novo vejo aí a "pontinha" do meu orgulho falando alto, porém faço questão de não chutar cachorro morto, ou seja todo mundo merece respeito. Também acho que a vida da gente é recheada de luzes e sombras e que às vezes o que incomoda no outro pode ser o que nos incomoda em nós mesmos.
Pode ser... não é que seja, porque eu por exemplo estou também sem paciência com pessoas invejosas e dos pecados que me "orgulho" de não possuir a inveja é um deles. Então eu vejo pessoas vibrando porque foram promovidas, porque vão viajar, porque estão bem e felizes simplesmente e quero vibrar com elas, quero estar junto. Se não vou junto na viajem digo que se lembre de mim e traga uma foto, envie um e-mail, mas estou feliz contigo é o que eu quero dizer. Mas quando vejo alguém sendo medíocre botando pulga nas orelhas de quem está feliz, me dá cá uma raiva... daí respiro fundo, porque na maioria das vezes não me diz respeito o que está acontecendo e procuro, quase nunca consigo é bem verdade, olhar o invejoso com misericórdia e penso: que triste, não é capaz de conseguir e fica agourando o outro.
Por isso a gente vai ficando madura e mais seletiva, respeitar quem está ainda assim preocupado com a vida dos outros e não com a própria, tudo bem, mas respeito não é presença, não é amizade, pode ser respeitar à distância.
Quando farejo alguém assim perto de mim, rezo para todos os santos e peço proteção, São Jorge tem a melhor oração e peço:
- Cuida dessa pessoa que ela seja bem feliz, longe de mim!

9 de fevereiro de 2011

A DOR DE CADA UM


Estou ainda processando os dados de tudo que mudou na minha vida a partir da experiência com o câncer.
Conclui algumas coisas, conversando com as pessoas que já tiveram a doença, ou não.
O modo como encaramos esse processo, é único.
Eu tive muita vontade de colocar tudo para fora, prova é a existência desse blog. Mas tem gente que não consegue ou não quer falar no assunto. Tem gente que não pode parar de trabalhar, que tem filhos pequenos, que precisa continuar fazendo todos os afazeres domésticos, porque não tem quem os faça. Tem gente que se fecha no quarto e tem gente que não para em casa.
Tem gente que sente muitas dores físicas e há os que não sentem dor alguma.
Quando há dor física, não há espaço para pensar. Quando há dor é na alma, ainda há uma chance de repensar.
O fato é que a dor de cada um é sem medidas, não existem maiores nem piores, só existem , dores diferentes e maneiras diferentes de lidar com o que está acontecendo.
Para lidar com a dor há de tudo e cada pessoa escolhe o que vai lançar mão. Escolhe ou é escolhida, pois quase sempre neste caso a liberdade é algo escorregadio. É mais fácil se deixar levar pelas circunstâncias, do que escolher enfrentá-las. Cada um, com os recursos internos que possui, vai ter que dar conta desta demanda de vida. A vontade de viver tem que ser maior do que a vontade de morrer, este é o único fato que pode ser comum para enfrentar a dor. Mas há também quem queira morrer. Há os que não podem lutar contra uma doença em estágio avançadíssimo. Mas ainda assim, quando a possibilidade de morte é bem real, podemos escolher morrer com dignidade.
Em todos os casos podemos fazer deste momento de vida uma oportunidade para desenvolver a amorosidade, a empatia, a resiliência, o sentimento de seguir em frente de se tornar uma guerreira. Foi assim que me sentia, fui para guerra, voltei venci uma grande batalha, as marcas estarão para sempre no corpo e na alma, as do corpo tem como minimizá-las com o tempo, espero que as da alma também.
Na busca de força para continuar o amor é o que fala mais alto porque uma vida só vale a pena ser vivida se for no amor, senão a gente corre o risco de já ter morrido e não ter percebido. Não há quem aguente viver a dor maior que é viver sem amor.
PS: A imagem acima é do filme "Minha vida sem mim".

31 de janeiro de 2011

O que me importa?



Lendo o livro, "Cartas do poeta sobre a vida", encontrei:
Sobre vida e viver...
É necessário viver a vida ao limite, não segundo os dias, mas segundo a profundidade. Pois nossa vida é grande e acomoda tanto futuro, quanto somos capazes de carregar...
Rilke



Pois é quanto de futuro ainda sou capaz de carregar?
Antes de ser surpreendida pelo inesperado, eu tinha muitos planos e brincava dizendo que era muita coisa a ser vivida em uma única vida, que talvez não desse tempo.
As palavras tem poder? Creio que sim e me pregaram uma peça. Pois ao dizer que não dava tempo, parece que eu tinha a intuição que era preciso priorizar, descobrir o que fazer, por onde ir...
Resolvi que estou escolhendo o que fazer com o tempo que tenho, que espero sinceramente seja muito longo.
Estou livre da doença, mas não do fantasma dela, a terapia ainda tem um lugar importante na minha vida e serve para que eu me olhe e me redescubra, e redescubra possibilidades e respeite meus limites.
O corpo pede aquilo que a alma manda. Acho que foi por isso que passei por este processo de reinvenção, resignificação. Foi necessário apesar de não ter sido fácil.
Entrei na panela como milho e me transformei em pipoca, mas para isso passei pelo fogo.
Sempre adorei os textos de Rubem Alves e em uma das suas crônicas ele diz exatamente isto: "para ser pipoca tem que passar pelo fogo, quem não passar pelo fogo virá piruá, milho que ninguém quer que ficou duro no fundo da panela". 
Parece ameaçador passar pelo fogo, mas depois que passamos, descobrimos que somos capazes de suportar muito e de relativizar tudo que julgávamos grave e importante.
Descobrimos que não são "problemas" nossos, da nossa família, dos nossos amigos, descobrimos enfim que os problemas são "humanos", ou seja fazem parte da nossa trajetória de vida, impossível viver sem eles. O possível é administrá-los.
Passamos a julgar menos, mas a sermos mais seletivos, somos capazes de entender os sentimentos alheios, mas passamos a escolher com quem queremos conviver. 
Percebemos que o tempo precisa ser usado de forma inteligente, isso é sinal de maturidade. Paramos de perder tempo com mesquinharias e não raro fugimos de situações de conflito, como forma de auto cuidado. 
Só entramos em uma briga, quando esta vale a pena.
Vomitamos todos os sapos que outrora engolimos. 
Esvaziamos a mochila para que possamos enche-la de coisas leves e agradáveis e principalmente enche-la de futuro.
Somos mais sinceros.
Talvez menos agradáveis com os outros e mais agradáveis conosco.
Importa mesmo é viver e ser feliz, ter uma vida que valha a pena ser vivida em profundidade e às vezes com alguma superficialidade, senão a gente não aguenta.

29 de janeiro de 2011

24 de janeiro de 2011

É obra do acaso?


No editorial de sábado do jornal Zero Hora a Dra Maira Caleffi, presidente do Instituto da Mama - RS, uma organização não governamental, alertava para o número de mulheres que morrem diariamente em decorrência do câncer de mama. Dizia ela que já que não há prevenção, é preciso diagnosticar a enfermidade no início do seu surgimento. Daí fiquei pensando novamente na doença e no porque do seu surgimento na minha vida, pensei que realmente é quase uma loteria ao contrário, principalmente no meu caso que amamentei os três filhos, não fumo, não bebo (depois da quimio tomei umas tacinhas de espumante), etc, etc, e tudo que já disse antes, afinal fiz quase tudo que uma "boa" moça de família faria. Para que? Para ser contemplada com essa doença mutilante, tem horas que é difícil não sentir um sentimento de revolta.
Outro dia estava no supermercado e o rapaz que me ajudou com os pacotes me perguntou, como era a quimioterapia (ele me viu quase careca e associou ao câncer), se era muito ruim mesmo e se eu tinha idéia de porque eu tinha sido "sorteada"? (Palavra não muito apropriada uma vez que deriva de sorte, que sorte?)
Lhe respondi que não fazia a mínima idéia, não sou nenhuma santa, mas me considero uma pessoa relativamente legal, sem falhas graves de caráter e que simplesmente não havia uma explicação, ou seja eu não sabia porque tinha adoecido. Também tenho uma vida relativamente boa, tenho uma família que se ama, unida e onde as discórdias e conflitos são administráveis, não há nada de muito grave nos acontecendo, a não ser os problemas cotidianos.
Pensei na minha irmã que morreu com a mesma doença aos 38 anos e senti muita saudade e lembro o quanto ela era divertida, bonita e o quanto sofreu com dores que nem a morfina acalmava.
É justo?
Acho que não, mas não dá para entrar neste tipo de raciocínio, pois o câncer é bem democrático atinge todas as idades e todos os tipos de pessoas, se pensarmos nas crianças então...
 O que eu quero dizer com tudo isso é que tem uma parcela da nossa vida que é marcada por sorte ou azar, é a única explicação que encontro no momento, não acredito em carma, em expiar os pecados de outra encarnação. Encarnada estou com certeza nesta vida. Tão pouco acredito que estou pagando por algum erro, não fiz nada de tão grave que mereça tamanho castigo e de novo é uma lógica complicada, quando vemos crianças em estado terminal. Espiritualmente acredito em um Deus que de tanto amar já nos redimiu, um Deus que tem um amor incondicional que não nos julga por méritos ou deméritos; que nos ama até nas nossas fraquezas, ou seja acho que isso não tem nada a ver com Deus.
Porque então?
Ainda não sei a resposta e talvez nunca a saiba, mas quando olho para tudo que passei e a revolta tenta achar um lugar para ficar, tento ver que existem histórias piores que a minha, renovo a minha esperança, levanto a cabeça e novamente sigo em frente, no momento é só o que posso pensar e fazer.

Mais fotinhos do meu aniversário










23 de janeiro de 2011

"Lapidada"


Um novo ano, um novo começo, um novo jeito de fazer coisas...
Terminada a etapa da quimioterapia, é hora de enfrentar outra parte do tratamento; a ingestão diária de tamoxifeno por 5 anos. Surgem dúvidas, alguns receios que não chegam a ser medos, são mais leves. Mas uma decisão toma conta de mim: vou tomar o comprimido religiosamente no mesmo horário e ele é mais uma arma que disponho na luta contra o câncer. Eu gostaria muito de não estar passando por isso, mas já que estou, louvo a Deus pela existência do tratamento e de medicações que são eficazes e curam, câncer  não é mais sinônimo de morte. No caso do câncer de mama as pesquisas mostram que não há como se prevenir dele, porém o diagnóstico precoce é uma das únicas chances que temos. Portanto exames periódicos, mamografias anuais, são uma forma de se proteger. Ao sinal de mudança no corpo, convém deixar o medo de lado e enfrentar a situação.
Segundo dados do IMAMA - RS, no Brasil por dia morrem 30 mulheres acometidas por este tipo de câncer. Fato este que poderia ser minimizado com diagnóstico e tratamento precoces. A chance de cura deste câncer no estágio inicial da doença é de 95% e isto não é pouco.
Quanto a mim quero viver, se assim Deus permitir, até os oitenta, noventa anos, quem sabe?
Mas com saúde do corpo e da alma. Quero ir a formatura dos meus filhos, quero casá-los e conduzi-los ao altar, quero festejar todas as bodas possíveis e quero ninar meus netos, bisnetos e dar ainda muito de mim.
Para que isso seja possível iniciei uma mudança lenta mas contínua, estou cuidando bem de mim mesma, revendo alimentação, caminhando quase diariamente, reduzi por hora minha jornada de trabalho e estou empenhada em ser a minha prioridade número 1.
Quando caminho pela orla do Guaíba, moro na zona sul de Porto Alegre, um sentimento de amor a mim mesma me invade, sinto uma força grande para lutar em busca de meus objetivos que são de toda ordem e às vezes de relevância duvidosa. Por exemplo: Quero ter uma bunda menor, kkkk, mas também quero iniciar um novo curso de pós graduação. Neste paradoxo do fútil com aquilo que é mais sério, vou caminhando e tecendo planos para a minha existência. É assim que sinto a vida: multi facetada e assim sinto as pessoas: um pouco fúteis, um pouco sérias. Acho muito interessantes as que mantém esse equilíbrio e que conseguem viver essa dialética no cotidiano.
Com tanto pensar me vem o que a minha vida tem sido ultimamente e vejo que vivo um momento onde há uma avalanche de emoções. Não tem como não usar a frase de Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...". As emoções são incontáveis, sentimentos que surgem em todos os momentos da minha vida e me afetam às vezes positivamente e em outras vezes negativamente.
Mas especialmente durante uma doença somos quase que forçados a prestar a atenção naquilo que sentimos, temos enfim um tempo para nos escutar e escutar o que nos afeta. É por isso que uma doença pode ser uma oportunidade única de "lapidação". E para mim foi além de escuta atenta ao que me ocorreu, uma lapidação profunda que me livrou de camadas de orgulho, vaidade, busca de poder. No final encontrei em mim uma mulher mais amorosa, mais conectada consigo mesma. Foi um processo que doeu muito, mas foi necessário polir para brilhar mais, brilhar por dentro, para reluzir por fora.
Neste jogo da vida escolhi, como já disse o papel de protagonista e como diz Lulu Santos: "não vou sobrar de vítima das circunstâncias." São escolhas que podem fazer de nós pessoas felizes ou infelizes e eu acredito que no final é o que temos: a escolha. Talvez essa seja a única liberdade, quando tudo a nossa volta foge do nosso controle, ou melhor, quando descobrimos que não temos controle nenhum sobre a nossa vida e apesar de nos sentirmos em paz, coisas ruins nos acontecem e a liberdade de encará-las é única e cabe somente a nós decidir como fazê-lo. Eu decidi encarar de "peito" aberto e não me arrependo.

GISELE

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