19 de fevereiro de 2011

De Piruá à Pipoca ...


Na manhã de sexta feira quando acordei, tinha uma lua parecida com esta no caminho que fiz até o centro da cidade. Foi o primeiro dia de algo novo na minha vida: o Projeto Piruá. Confesso que foi um dia muito feliz do início ao fim, estou indo fazer aquilo que eu mais gosto que é trabalhar as questões humanas e as suas transformações. Descobri que para permanecer pipoca necessitamos de muito empenho, senão lá estamos nós "piruás" de novo...
Piruá para quem ainda não entendeu é aquele milho que não estourou, não virou pipoca, mesmo passando pelo fogo. Aquele milho que se recusou a ser "cambiado".
Quanto a mim estou lutando para continuar pipoca.
Quanto a minha amiga, também é uma pipoca e daquelas as quais causam em nós admiração.
O projeto Piruá nasceu desta transformação que passei e da transformação pela qual minha amiga e parceira no projeto também passou.
 O objetivo deste trabalho é levar aos educadores, aos profissionais da saúde, aos casais, às mulheres, um momento de auto-cuidado, de se olhar, de se perceber e de se resignificar a partir das próprias experiências sejam elas boas ou ruins.
O primeiro encontro foi muito legal e terminamos o dia com a sensação maravilhosa de missão cumprida.
Acredito que esse trabalho me ajudará muito, pois olhando as experiências de vida de outras pessoas, vejo que eu posso crescer como pessoa.
Daí pensei que a minha vida passou pelo fogo durante quase um ano, e eu virei uma "pipoquinha", agora eu preciso ajudar a estourar milhos por aí, lutar para que os momentos "piruás", sejam mais raros dos que os momentos pipoca, primeiro na minha vida e depois na vida dos outros.
Cheia de desafios, com uma energia grande para o trabalho e muita vontade de viver é assim que hoje me sinto.
Obrigada meu Deus, pelo fogo, sem ele, não teria virado Pipoca.

11 de fevereiro de 2011

Luzes e sombras


Ando muito ligada no que está acontecendo no meu dia. estou atenta ao que falo, ao que escuto e descobrindo aos 42 anos, nunca é tarde, como é que o mundo gira. Antes eu achava que ele girava conforme a minha vontade e aí está o meu maior defeito, o chefão dos meus pecados: o orgulho. Pensava que todo mundo iria torcer por mim, iria rezar para que eu ficasse bem enfim me achava uma unanimidade. Que louca!
que orgulhosa, eu achava que podia escolher olhar o mundo e não ver certas imperfeições, acreditava na liberdade total do ser humano de escolher entre o bem e o mal. Escolhas que não são simples, muitas vezes o que julgamos bem pode ser o mal para alguém. Então, de novo penso, que há muito o que  ver e aprender.
Tudo isso para dizer que alguns tipos de pessoas tem me incomodado muito. Por exemplo: as pessoas queixosas que fazem seus dramas maiores do que são, estou sem paciência nenhuma para essa gente, desculpem, é até politicamente incorreto admitir, mas não tenho mais vocação para aguentar quem não se aguenta. De novo vejo aí a "pontinha" do meu orgulho falando alto, porém faço questão de não chutar cachorro morto, ou seja todo mundo merece respeito. Também acho que a vida da gente é recheada de luzes e sombras e que às vezes o que incomoda no outro pode ser o que nos incomoda em nós mesmos.
Pode ser... não é que seja, porque eu por exemplo estou também sem paciência com pessoas invejosas e dos pecados que me "orgulho" de não possuir a inveja é um deles. Então eu vejo pessoas vibrando porque foram promovidas, porque vão viajar, porque estão bem e felizes simplesmente e quero vibrar com elas, quero estar junto. Se não vou junto na viajem digo que se lembre de mim e traga uma foto, envie um e-mail, mas estou feliz contigo é o que eu quero dizer. Mas quando vejo alguém sendo medíocre botando pulga nas orelhas de quem está feliz, me dá cá uma raiva... daí respiro fundo, porque na maioria das vezes não me diz respeito o que está acontecendo e procuro, quase nunca consigo é bem verdade, olhar o invejoso com misericórdia e penso: que triste, não é capaz de conseguir e fica agourando o outro.
Por isso a gente vai ficando madura e mais seletiva, respeitar quem está ainda assim preocupado com a vida dos outros e não com a própria, tudo bem, mas respeito não é presença, não é amizade, pode ser respeitar à distância.
Quando farejo alguém assim perto de mim, rezo para todos os santos e peço proteção, São Jorge tem a melhor oração e peço:
- Cuida dessa pessoa que ela seja bem feliz, longe de mim!

9 de fevereiro de 2011

A DOR DE CADA UM


Estou ainda processando os dados de tudo que mudou na minha vida a partir da experiência com o câncer.
Conclui algumas coisas, conversando com as pessoas que já tiveram a doença, ou não.
O modo como encaramos esse processo, é único.
Eu tive muita vontade de colocar tudo para fora, prova é a existência desse blog. Mas tem gente que não consegue ou não quer falar no assunto. Tem gente que não pode parar de trabalhar, que tem filhos pequenos, que precisa continuar fazendo todos os afazeres domésticos, porque não tem quem os faça. Tem gente que se fecha no quarto e tem gente que não para em casa.
Tem gente que sente muitas dores físicas e há os que não sentem dor alguma.
Quando há dor física, não há espaço para pensar. Quando há dor é na alma, ainda há uma chance de repensar.
O fato é que a dor de cada um é sem medidas, não existem maiores nem piores, só existem , dores diferentes e maneiras diferentes de lidar com o que está acontecendo.
Para lidar com a dor há de tudo e cada pessoa escolhe o que vai lançar mão. Escolhe ou é escolhida, pois quase sempre neste caso a liberdade é algo escorregadio. É mais fácil se deixar levar pelas circunstâncias, do que escolher enfrentá-las. Cada um, com os recursos internos que possui, vai ter que dar conta desta demanda de vida. A vontade de viver tem que ser maior do que a vontade de morrer, este é o único fato que pode ser comum para enfrentar a dor. Mas há também quem queira morrer. Há os que não podem lutar contra uma doença em estágio avançadíssimo. Mas ainda assim, quando a possibilidade de morte é bem real, podemos escolher morrer com dignidade.
Em todos os casos podemos fazer deste momento de vida uma oportunidade para desenvolver a amorosidade, a empatia, a resiliência, o sentimento de seguir em frente de se tornar uma guerreira. Foi assim que me sentia, fui para guerra, voltei venci uma grande batalha, as marcas estarão para sempre no corpo e na alma, as do corpo tem como minimizá-las com o tempo, espero que as da alma também.
Na busca de força para continuar o amor é o que fala mais alto porque uma vida só vale a pena ser vivida se for no amor, senão a gente corre o risco de já ter morrido e não ter percebido. Não há quem aguente viver a dor maior que é viver sem amor.
PS: A imagem acima é do filme "Minha vida sem mim".

31 de janeiro de 2011

O que me importa?



Lendo o livro, "Cartas do poeta sobre a vida", encontrei:
Sobre vida e viver...
É necessário viver a vida ao limite, não segundo os dias, mas segundo a profundidade. Pois nossa vida é grande e acomoda tanto futuro, quanto somos capazes de carregar...
Rilke



Pois é quanto de futuro ainda sou capaz de carregar?
Antes de ser surpreendida pelo inesperado, eu tinha muitos planos e brincava dizendo que era muita coisa a ser vivida em uma única vida, que talvez não desse tempo.
As palavras tem poder? Creio que sim e me pregaram uma peça. Pois ao dizer que não dava tempo, parece que eu tinha a intuição que era preciso priorizar, descobrir o que fazer, por onde ir...
Resolvi que estou escolhendo o que fazer com o tempo que tenho, que espero sinceramente seja muito longo.
Estou livre da doença, mas não do fantasma dela, a terapia ainda tem um lugar importante na minha vida e serve para que eu me olhe e me redescubra, e redescubra possibilidades e respeite meus limites.
O corpo pede aquilo que a alma manda. Acho que foi por isso que passei por este processo de reinvenção, resignificação. Foi necessário apesar de não ter sido fácil.
Entrei na panela como milho e me transformei em pipoca, mas para isso passei pelo fogo.
Sempre adorei os textos de Rubem Alves e em uma das suas crônicas ele diz exatamente isto: "para ser pipoca tem que passar pelo fogo, quem não passar pelo fogo virá piruá, milho que ninguém quer que ficou duro no fundo da panela". 
Parece ameaçador passar pelo fogo, mas depois que passamos, descobrimos que somos capazes de suportar muito e de relativizar tudo que julgávamos grave e importante.
Descobrimos que não são "problemas" nossos, da nossa família, dos nossos amigos, descobrimos enfim que os problemas são "humanos", ou seja fazem parte da nossa trajetória de vida, impossível viver sem eles. O possível é administrá-los.
Passamos a julgar menos, mas a sermos mais seletivos, somos capazes de entender os sentimentos alheios, mas passamos a escolher com quem queremos conviver. 
Percebemos que o tempo precisa ser usado de forma inteligente, isso é sinal de maturidade. Paramos de perder tempo com mesquinharias e não raro fugimos de situações de conflito, como forma de auto cuidado. 
Só entramos em uma briga, quando esta vale a pena.
Vomitamos todos os sapos que outrora engolimos. 
Esvaziamos a mochila para que possamos enche-la de coisas leves e agradáveis e principalmente enche-la de futuro.
Somos mais sinceros.
Talvez menos agradáveis com os outros e mais agradáveis conosco.
Importa mesmo é viver e ser feliz, ter uma vida que valha a pena ser vivida em profundidade e às vezes com alguma superficialidade, senão a gente não aguenta.

29 de janeiro de 2011

24 de janeiro de 2011

É obra do acaso?


No editorial de sábado do jornal Zero Hora a Dra Maira Caleffi, presidente do Instituto da Mama - RS, uma organização não governamental, alertava para o número de mulheres que morrem diariamente em decorrência do câncer de mama. Dizia ela que já que não há prevenção, é preciso diagnosticar a enfermidade no início do seu surgimento. Daí fiquei pensando novamente na doença e no porque do seu surgimento na minha vida, pensei que realmente é quase uma loteria ao contrário, principalmente no meu caso que amamentei os três filhos, não fumo, não bebo (depois da quimio tomei umas tacinhas de espumante), etc, etc, e tudo que já disse antes, afinal fiz quase tudo que uma "boa" moça de família faria. Para que? Para ser contemplada com essa doença mutilante, tem horas que é difícil não sentir um sentimento de revolta.
Outro dia estava no supermercado e o rapaz que me ajudou com os pacotes me perguntou, como era a quimioterapia (ele me viu quase careca e associou ao câncer), se era muito ruim mesmo e se eu tinha idéia de porque eu tinha sido "sorteada"? (Palavra não muito apropriada uma vez que deriva de sorte, que sorte?)
Lhe respondi que não fazia a mínima idéia, não sou nenhuma santa, mas me considero uma pessoa relativamente legal, sem falhas graves de caráter e que simplesmente não havia uma explicação, ou seja eu não sabia porque tinha adoecido. Também tenho uma vida relativamente boa, tenho uma família que se ama, unida e onde as discórdias e conflitos são administráveis, não há nada de muito grave nos acontecendo, a não ser os problemas cotidianos.
Pensei na minha irmã que morreu com a mesma doença aos 38 anos e senti muita saudade e lembro o quanto ela era divertida, bonita e o quanto sofreu com dores que nem a morfina acalmava.
É justo?
Acho que não, mas não dá para entrar neste tipo de raciocínio, pois o câncer é bem democrático atinge todas as idades e todos os tipos de pessoas, se pensarmos nas crianças então...
 O que eu quero dizer com tudo isso é que tem uma parcela da nossa vida que é marcada por sorte ou azar, é a única explicação que encontro no momento, não acredito em carma, em expiar os pecados de outra encarnação. Encarnada estou com certeza nesta vida. Tão pouco acredito que estou pagando por algum erro, não fiz nada de tão grave que mereça tamanho castigo e de novo é uma lógica complicada, quando vemos crianças em estado terminal. Espiritualmente acredito em um Deus que de tanto amar já nos redimiu, um Deus que tem um amor incondicional que não nos julga por méritos ou deméritos; que nos ama até nas nossas fraquezas, ou seja acho que isso não tem nada a ver com Deus.
Porque então?
Ainda não sei a resposta e talvez nunca a saiba, mas quando olho para tudo que passei e a revolta tenta achar um lugar para ficar, tento ver que existem histórias piores que a minha, renovo a minha esperança, levanto a cabeça e novamente sigo em frente, no momento é só o que posso pensar e fazer.

Mais fotinhos do meu aniversário










23 de janeiro de 2011

"Lapidada"


Um novo ano, um novo começo, um novo jeito de fazer coisas...
Terminada a etapa da quimioterapia, é hora de enfrentar outra parte do tratamento; a ingestão diária de tamoxifeno por 5 anos. Surgem dúvidas, alguns receios que não chegam a ser medos, são mais leves. Mas uma decisão toma conta de mim: vou tomar o comprimido religiosamente no mesmo horário e ele é mais uma arma que disponho na luta contra o câncer. Eu gostaria muito de não estar passando por isso, mas já que estou, louvo a Deus pela existência do tratamento e de medicações que são eficazes e curam, câncer  não é mais sinônimo de morte. No caso do câncer de mama as pesquisas mostram que não há como se prevenir dele, porém o diagnóstico precoce é uma das únicas chances que temos. Portanto exames periódicos, mamografias anuais, são uma forma de se proteger. Ao sinal de mudança no corpo, convém deixar o medo de lado e enfrentar a situação.
Segundo dados do IMAMA - RS, no Brasil por dia morrem 30 mulheres acometidas por este tipo de câncer. Fato este que poderia ser minimizado com diagnóstico e tratamento precoces. A chance de cura deste câncer no estágio inicial da doença é de 95% e isto não é pouco.
Quanto a mim quero viver, se assim Deus permitir, até os oitenta, noventa anos, quem sabe?
Mas com saúde do corpo e da alma. Quero ir a formatura dos meus filhos, quero casá-los e conduzi-los ao altar, quero festejar todas as bodas possíveis e quero ninar meus netos, bisnetos e dar ainda muito de mim.
Para que isso seja possível iniciei uma mudança lenta mas contínua, estou cuidando bem de mim mesma, revendo alimentação, caminhando quase diariamente, reduzi por hora minha jornada de trabalho e estou empenhada em ser a minha prioridade número 1.
Quando caminho pela orla do Guaíba, moro na zona sul de Porto Alegre, um sentimento de amor a mim mesma me invade, sinto uma força grande para lutar em busca de meus objetivos que são de toda ordem e às vezes de relevância duvidosa. Por exemplo: Quero ter uma bunda menor, kkkk, mas também quero iniciar um novo curso de pós graduação. Neste paradoxo do fútil com aquilo que é mais sério, vou caminhando e tecendo planos para a minha existência. É assim que sinto a vida: multi facetada e assim sinto as pessoas: um pouco fúteis, um pouco sérias. Acho muito interessantes as que mantém esse equilíbrio e que conseguem viver essa dialética no cotidiano.
Com tanto pensar me vem o que a minha vida tem sido ultimamente e vejo que vivo um momento onde há uma avalanche de emoções. Não tem como não usar a frase de Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...". As emoções são incontáveis, sentimentos que surgem em todos os momentos da minha vida e me afetam às vezes positivamente e em outras vezes negativamente.
Mas especialmente durante uma doença somos quase que forçados a prestar a atenção naquilo que sentimos, temos enfim um tempo para nos escutar e escutar o que nos afeta. É por isso que uma doença pode ser uma oportunidade única de "lapidação". E para mim foi além de escuta atenta ao que me ocorreu, uma lapidação profunda que me livrou de camadas de orgulho, vaidade, busca de poder. No final encontrei em mim uma mulher mais amorosa, mais conectada consigo mesma. Foi um processo que doeu muito, mas foi necessário polir para brilhar mais, brilhar por dentro, para reluzir por fora.
Neste jogo da vida escolhi, como já disse o papel de protagonista e como diz Lulu Santos: "não vou sobrar de vítima das circunstâncias." São escolhas que podem fazer de nós pessoas felizes ou infelizes e eu acredito que no final é o que temos: a escolha. Talvez essa seja a única liberdade, quando tudo a nossa volta foge do nosso controle, ou melhor, quando descobrimos que não temos controle nenhum sobre a nossa vida e apesar de nos sentirmos em paz, coisas ruins nos acontecem e a liberdade de encará-las é única e cabe somente a nós decidir como fazê-lo. Eu decidi encarar de "peito" aberto e não me arrependo.

22 de janeiro de 2011

PAUL MCCARTNEY - Live And Let Die - Morumbi - Sao Paulo - 21/11/2010 5

Live and let die, ou simplesmente viva e deixe morrer...


Viver e deixar morrer, é simplesmente aceitar que tudo muda o tempo inteiro.
Tudo muito lindo na teoria, mas na prática é outro papo.
Sou apegada a tudo que me rodeia e que faz parte da minha vida. Claro que com tudo o que me aconteceu me sinto um pouco mais desprendida, mas em mim o desejo de controlar coisas, pessoas e acontecimentos é ainda muito forte.
Eu todos os dias me olho no espelho para ver se nasceu um fio de cabelo novo, fico querendo imaginar o cabelo pintado de outras cores e me pego com um sentimento de saudades de um passado recente.
É loucura, queria tanto que terminasse o tratamento e terminou, agora queria tudo rápido de volta, impossível!!!
Paciência, nada de posar de vítima das circunstâncias, sou uma protagonista, sempre fui e sempre serei. Foi o papel que escolhi para a história da minha vida. sou uma "mocinha" da novela das oito, daquelas que tudo acontece e ela se dá bem, tem o amor da sua vida, filhos lindos, mas passa por alguns percalços até o "felizes para sempre". Claro que todos os dias preciso realimentar o "para sempre" e de alguma forma um pouco dele morre e renasce reinventado.
Hoje não sou mais a mulher que era há um ano atrás, sou em muitos aspectos, muito melhor.
Tenho uma história para contar, de luta, sofrimento e de vitória e tudo porque eu vivi e deixei morrer...

"Mas se este mundo sempre em mutação
No qual vivemos
Faz você se render e chorar
Diga "Viva e deixa morrer" 
Diga "Viva e deixa morrer"
Paul Mc Cartney / Linda Mc Cartney

14 de janeiro de 2011

4.2 DURA DE MATAR

Faz tempo que não escrevo, tenho tido pouco tempo e às vezes pouca vontade.
Hoje estou escrevendo para relatar a minha felicidade por ter comemorado mais um aniversário, ontem fiz 42 anos. Foi uma festa muito legal, a minha casa ficou cheia das pessoas que amo e muito; me senti uma menina, de 1 ano de idade, meu cabelo é de bebê, aliás ...
Na segunda feira desta semana, tive uma crise de identidade e abandonei a peruca, estava cansada dela, me sentia disfarçada, pouco autêntica e isso para mim é o que de pior pode me acontecer. Gosto de me olhar e me reconhecer; a peruca teve seu tempo importante, me ajudou a suportar o que era difícil, mas passou...
É  bem verdade que com o término da quimioterapia, nada termina, eu gostaria muito de voltar a ser quem eu era antes, ter o cabelo de volta como um passe de mágica, e isso é impossível!!!
É preciso paciência, para esperar crescer o cabelo e esperar o corpo voltar ao normal. Mas a graça de sentir-se viva, sentir os cheiros novamente, sentir disposição em realizar tarefas simples que durante o tratamento eu não podia fazer, não tem preço.
Com o ano novo vem a esperança de ter vencido esta batalha, estou em guerra ainda por cinco anos, mas sei que a minha chance é muito grande, porque sou "dura de matar". Dos desafios da minha vida este não foi nem de perto o maior. Tive uma infância problemática, de difteria à meningite, nada faltou no meu histórico de doenças infantis, além de todas as doenças tive um acidente de carro que deixou algumas cicatrizes e um tempo longo de hospitalização e tudo isso quando eu ainda não tinha 7 anos.
Portanto essa guerra é praticamente ganha, uma vez que hoje sou uma mulher madura, com bons recursos internos e com saúde física, sim, apesar do câncer.
Bem volto a festa do meu aniversário e quero dividir com quem me lê, algumas imagens do meu niver...

















23 de dezembro de 2010

NATAL


"Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e começa outra vez ..."

Foi um ano e tanto!
Queremos desejar a todos, os nossos desejos sinceros de um Feliz e abençoado Natal.
Este ano nós celebraremos o renascimento, não só do menino Jesus, mas de uma vida em família com saúde.
Não vamos nos cansar de agradecer a todos que rezaram para que essa doença que invadiu nossa casa fosse vencida.
Com a chegada do menino Jesus nosso coração se enche de alegria e ousa dizer:
"O Senhor fez em nós maravilhas e santo é o seu nome!"
Desejamos que haja Paz no seu coração e no da sua família.
Que haja muito amor também, e principalmente muita saúde!
Que 2011, seja repleto de realizações e que tenhamos a força de vencê-lo no final.

Lu e família

21 de dezembro de 2010

TODO AMOR QUE HOUVER NESTA VIDA!!!


Há dias tenho pensado, como estou me sentindo no final desta etapa, se estou bem, como venci, como passei por tudo, quais eram minhas expectativas, enfim passei me indagando.
Até descobrir que eu já não sou um casulo, a borboleta já nasceu, minha alma já fez este processo de metamorfose, estou pronta desta etapa e isso não significa que outras metamorfoses não virão.
A aprendizagem mais significativa que tive foi que tudo muda o tempo todo, não dá para parar no tempo, não dá para achar que a vida está ganha, é preciso ganhá-la todos os dias, escolher entre viver alimentando a pulsão de vida que há em mim neste momento, nesta hora, neste segundo e alimentar a pulsão de morte.
A quimioterapia terminou, mas as marcas do câncer permanecem e isto pode às vezes alimentar uma certa depressão, pois ainda não tenho cabelos e ainda estou incompleta com a falta de um novo seio.
No verão surgem os desafios de mostrar mais o corpo e não tem como esconder a insegurança de revelar algo: o vazio me incomoda e muito. Não sou hipócrita para dizer que isto não pesa, pesa e muito. Mas sou uma borboleta por dentro e isso é o que mais importa afinal.
Estes dias estávamos rezando o terço e experimentei um estado de contentamento que entendi a expressão: "sorria desde o fígado". Me senti tão inteira, tão plena como jamais havia me sentido antes, mesmo antes da doença. Em outro dia procurava uma roupa para colocar e são poucas as que me caem "muito bem', ainda estou inchada, daí resolvi me vestir com o melhor que tenho: meu sorriso e sei que me senti um sucesso. Descobri que para eu me sentir feliz, preciso na verdade de muito pouco...
Descobri que preciso mesmo é "me sentir", "me ouvir", escutar a minha alma.
Só uma coisa é necessária, descobri  que essa coisa é o amor. Na minha vida, pode me faltar tudo, menos o amor, na família, com os amigos, enfim muitas formas de amor; se eu tiver saúde estou radiante, se eu puder viajar, serei muito feliz, por hora quero só amor, muito amor!!! Todo o amor que houver nesta vida.

14 de dezembro de 2010

O esforço para continuar feminina...


Será que o esforço para continuar feminina é pedir muito?
Deve ser algum pecado mortal, além de vencer o câncer, ter uma vida quase normal.
Hoje quase mandei a dona de uma loja à pqp!
A criatura estava tentando me vender a parte de cima de um biquíni...
Primeiro me fez entender que fazia por medida, entrou na cabine mediu meu tórax, com prótese e sem prótese, depois adentrou o provador muito íntima minha já e começou a me ajudar a experimentar um sutiã, artigo ao qual eu não estava procurando, eu estava de lenço no pescoço e ela achou que era para esconder a prótese, o que não era verdade, pois hoje está mais fresquinho e botei o lenço por charme. Em seguida fez a vendedora vir com vários modelos prontos de biquínis para que eu experimentasse, experimentei e perguntei então se fariam sob medida, ela me disse que não, mas que eu não devia tentar esconder tanto, tinha que aceitar, afinal eu estava com "saúde" e isso era o que importava, para que esconder? Quando perguntei se fariam um forro para inserir a prótese ela me disse: - "não isso tu mesma podes fazer de algodão, um saquinho..".  Saco eu tive que ter e bem grande. Daí inchei no provador, pensei que ia chorar, pois achei de uma falta de sensibilidade, o fato de não ouvir o que eu estava procurando, além disso se não fazem sob medida, para que me medir? Me expor no provador, fazer mostrar o vazio, a cicatriz, para que? Provar os biquínís eu poderia tê-lo feito sozinha, tirei o seio, não o cerébro, não fiquei "retardada", nem com problemas para me movimentar.
Fiquei muito irritada com a situação, aí fui em outra loja, expliquei a situação e a vendedora me disse que fazem sob encomenda, mas que precisam de um modelo, não tiram medidas, foi mais discreta, (embora a gente perceba o choque no rosto, quando expliquei que tinha terminado há pouco a quimio) e combinei que levaria o meu sutiã com espaço para prótese, para ver se é possível. Pelo menos não escutei nenhum comentário ao que eu devo ou não valorizar nesta vida, depois de tudo era só o que me faltava!!!
Discrição é tudo o que queremos neste momento, não queremos nos expor muito.
Quando escrevo o blog, cuido para que a minha exposição não seja exagerada, embora que o meu objetivo é este mesmo, mostrar todas as facetas da doença e do seu tratamento, tudo o que me aconteceu, de bom de ruim e nunca esquecer que "aquilo que não me mata me deixa mais forte". Quem sabe antes desta experiência do câncer, eu não seria esta pessoa também, querendo resolver o problema sob a minha ótica, meu ponto de vista, sem ouvir a necessidade do outro?
Há de tudo nessa vida; "psicólogo de plantão", então nem se fala, tinha acabado de sair da minha terapia, momento  no qual  eu sempre saio mais reflexiva, se eu quisesse a opinião de alguém, eu pediria e não tenho paciência para quem não sabe das minhas dores e se acha no direito de dar palpite.

12 de dezembro de 2010

Vou na direção do sol, um girassol ...

Recebi um vídeo, da minha amiga Cris, sobre o girassol, eu achei lindo, por isso agora me batizo de Girassol.
Ainda sou borboleta, meio confusa, sem saber em qual fase está, mas decidida a mudar de fase.
Isso é o que importa.
Agregar outros adjetivos, ter novos nomes, disso tenho certeza que é o que eu quero: transformação constante...
Tudo é ciclo, tudo começa, termina, recomeça e acaba novamente.
Estou no início do fim, loucura, né?
Nem me fale...
Talvez por isso a confusão, às vezes a revolta, às vezes o sentimento de pura gratidão.
Mas sempre tentando achar o sol...

10 de dezembro de 2010

No novo tempo que eu começo hoje ...

‎"As coisas tristíssimas,vão desaparecer quando soar a trombeta. Levantaremos como deuses, com a beleza das coisas que nunca pecaram, como árvores, como pedras, exatos e dignos de amor." Adélia Prado


9 de dezembro de 2010

BANHO DE MAR


Faz dois dias que os efeitos da quimioterapia, resolveram aparecer.
Fico pregada e o meu rosto está parecendo tipo assim uma "sobrevivente do holocausto".
Fico me cobrando que tenho que levantar, reagir, quem sabe estou "me fazendo?"
Tudo inútil, a droga prega na cama, se a gente esquece ela lembra que é forte e quase nos derruba.
A alegria está em saber que terminou, mais uns dias e estou livre destes inconvenientes.
Restam outros bem mais humanos:
Estou enjoada da peruca, enjoada de me travestir.
Estou exausta, esta é a mais pura verdade.
Terminou o tratamento e junto com o término, vem a exaustão, segurei muita coisa no peito. Agora o peito pede ar puro, novos ares...
Logo vou estar na praia, botando meu pé na areia e sonho ...
Sonho mais do que tudo em tomar um gostoso banho de mar, que leve para bem longe tudo o que passei. quero sentir a força das ondas contra o meu corpo, me animando, me fortalecendo, fazendo eu me sentir viva e renovada.
Que venha logo 2011 e junto com ele eu possa realizar os meus desejos de felicidade.
PS: PARA MARCIA TAVARES:
TUDO PASSA, VOCÊ VAI SUPERAR TAMBÉM!!!

6 de dezembro de 2010

Das coisas que eu construí durante o tratamento - Parte II

Reler a própria história foi muito importante, durante o tratamento, e isso foi proporcionado pelo processo de terapia, sendo ela feita, com a minha terapeuta, ou com meus amigos, família e etc...
Na sexta feira, dia da festa da escola, recebi essa homenagem, que foi linda, em forma de vídeo, junto com a colcha, da qual já falei antes.
Segue o vídeo, que mostra um pouco da minha história e que foi elaborado pelos pais da escola, amigas e meu filho Raphael.
Não precisa dizer que chorei muito, né? Neste dia ofereço este mesmo vídeo ao meu marido, pelo nosso aniversário de casamento, hoje completamos 24 anos de amor, cumplicidade, companheirismo, afeto, desejo de um pelo outro.
Se houveram pedras no caminho? Muitas, acho até que já dá para construir dois castelos.

5 de dezembro de 2010

Das coisas que eu construi durante o tratamento - Shazan


Shazan, foi um jeito que eu e meu marido achamos de não dizer nada, mas de nos apoiarmos, então inventamos essa brincadeira, que é a seguinte: na hora em que eu estava ruim mesmo, me sentindo muito mal, nós encostávamos a nossa aliança de casamento uma na outra e dizíamos ou as vezes só pensávamos "Shazan"; era uma forma de recuperar a força perdida e dizer, tudo bem vai passar, estamos juntos, eu te amo e etc...
Era  apenas um gesto, sem palavras, porque às vezes as palavras não conseguiam ser ditas, não havia voz, nem força para pronunciá-las, então às vezes eu, às vezes ele, buscávamos a aliança um do outro.
Ontem conversamos sobre isso sobre como isso renova a nossa promessa feita um ao outro de estarmos juntos na alegria e na tristeza. De quanto pequenas atitudes alimentam o nosso amor.
Amanhã vamos fazer 24 anos de casados e isso é muito, pois hoje em dia compromisso é palavra fora de moda. Casei quando tinha 17 anos e meu marido 19, loucura total, aprendemos quase tudo juntos, pela dor e pelo amor. E agora durante esse processo todo de tratamento de um câncer, descobrimos novas formas de nos amar e continuar o nosso "compromisso", a nossa intimidade, a nossa cumplicidade, dessas coisas é que é feita uma relação à dois.
Eu agradeço muito ao meu marido, mas confesso que eu não esperava nada diferente, acho que uma relação deve existir para ser boa, eu prometi, ele prometeu, promessas sem amor, não valem nada, mas quando há amor, não há nada que as quebre. Quando há a benção de Deus então nem se fala. Descobrimos o valor do sacramento nas nossas vidas, sacramento que quer dizer:  sinal invisível da graça de Deus.
Deus estava conosco e está em todos as horas as mais felizes e nas menos, mas com a força do sacramento, do nosso "Shazan", ele se sente mais à vontade para agir...
Eu descobri também, que o fato de hoje estar proclamando todo o nosso amor, não impede que mais tarde ele acabe, mas eu não tenho mais medo de dizer que ele é infinito e pode durar para sempre.
É um projeto de vida, continuar amando, precisa todos os dias de planejamento e ação, para que de fato seja infinito, ao menos enquanto dure.
No meu caso, sonho que dure para sempre!
Shazan!

4 de dezembro de 2010

Colcha da Amizade

Ontem pude participar da festa de encerramento da escola e ganhei uma colcha linda, com desenhos dos meus 75 alunos. Em breve colocarei a foto aqui, ela já está na minha cama, me enchendo de energias positivas.
Foi uma homenagem linda que ganhei.
Pensando bem no meu ano, ganhei mais que perdi, mesmo com todas as "travessias desse ano".
Recebi tanto amor!!!!!!!!!!!!!!!!!
"obrigadu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"
A partir de agora viverei como a Canção de Sempre do meu querido Mario Quintana:


Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mário Quintana

GISELE

                                                                                                                                         ...