23 de janeiro de 2011

"Lapidada"


Um novo ano, um novo começo, um novo jeito de fazer coisas...
Terminada a etapa da quimioterapia, é hora de enfrentar outra parte do tratamento; a ingestão diária de tamoxifeno por 5 anos. Surgem dúvidas, alguns receios que não chegam a ser medos, são mais leves. Mas uma decisão toma conta de mim: vou tomar o comprimido religiosamente no mesmo horário e ele é mais uma arma que disponho na luta contra o câncer. Eu gostaria muito de não estar passando por isso, mas já que estou, louvo a Deus pela existência do tratamento e de medicações que são eficazes e curam, câncer  não é mais sinônimo de morte. No caso do câncer de mama as pesquisas mostram que não há como se prevenir dele, porém o diagnóstico precoce é uma das únicas chances que temos. Portanto exames periódicos, mamografias anuais, são uma forma de se proteger. Ao sinal de mudança no corpo, convém deixar o medo de lado e enfrentar a situação.
Segundo dados do IMAMA - RS, no Brasil por dia morrem 30 mulheres acometidas por este tipo de câncer. Fato este que poderia ser minimizado com diagnóstico e tratamento precoces. A chance de cura deste câncer no estágio inicial da doença é de 95% e isto não é pouco.
Quanto a mim quero viver, se assim Deus permitir, até os oitenta, noventa anos, quem sabe?
Mas com saúde do corpo e da alma. Quero ir a formatura dos meus filhos, quero casá-los e conduzi-los ao altar, quero festejar todas as bodas possíveis e quero ninar meus netos, bisnetos e dar ainda muito de mim.
Para que isso seja possível iniciei uma mudança lenta mas contínua, estou cuidando bem de mim mesma, revendo alimentação, caminhando quase diariamente, reduzi por hora minha jornada de trabalho e estou empenhada em ser a minha prioridade número 1.
Quando caminho pela orla do Guaíba, moro na zona sul de Porto Alegre, um sentimento de amor a mim mesma me invade, sinto uma força grande para lutar em busca de meus objetivos que são de toda ordem e às vezes de relevância duvidosa. Por exemplo: Quero ter uma bunda menor, kkkk, mas também quero iniciar um novo curso de pós graduação. Neste paradoxo do fútil com aquilo que é mais sério, vou caminhando e tecendo planos para a minha existência. É assim que sinto a vida: multi facetada e assim sinto as pessoas: um pouco fúteis, um pouco sérias. Acho muito interessantes as que mantém esse equilíbrio e que conseguem viver essa dialética no cotidiano.
Com tanto pensar me vem o que a minha vida tem sido ultimamente e vejo que vivo um momento onde há uma avalanche de emoções. Não tem como não usar a frase de Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi...". As emoções são incontáveis, sentimentos que surgem em todos os momentos da minha vida e me afetam às vezes positivamente e em outras vezes negativamente.
Mas especialmente durante uma doença somos quase que forçados a prestar a atenção naquilo que sentimos, temos enfim um tempo para nos escutar e escutar o que nos afeta. É por isso que uma doença pode ser uma oportunidade única de "lapidação". E para mim foi além de escuta atenta ao que me ocorreu, uma lapidação profunda que me livrou de camadas de orgulho, vaidade, busca de poder. No final encontrei em mim uma mulher mais amorosa, mais conectada consigo mesma. Foi um processo que doeu muito, mas foi necessário polir para brilhar mais, brilhar por dentro, para reluzir por fora.
Neste jogo da vida escolhi, como já disse o papel de protagonista e como diz Lulu Santos: "não vou sobrar de vítima das circunstâncias." São escolhas que podem fazer de nós pessoas felizes ou infelizes e eu acredito que no final é o que temos: a escolha. Talvez essa seja a única liberdade, quando tudo a nossa volta foge do nosso controle, ou melhor, quando descobrimos que não temos controle nenhum sobre a nossa vida e apesar de nos sentirmos em paz, coisas ruins nos acontecem e a liberdade de encará-las é única e cabe somente a nós decidir como fazê-lo. Eu decidi encarar de "peito" aberto e não me arrependo.

22 de janeiro de 2011

PAUL MCCARTNEY - Live And Let Die - Morumbi - Sao Paulo - 21/11/2010 5

Live and let die, ou simplesmente viva e deixe morrer...


Viver e deixar morrer, é simplesmente aceitar que tudo muda o tempo inteiro.
Tudo muito lindo na teoria, mas na prática é outro papo.
Sou apegada a tudo que me rodeia e que faz parte da minha vida. Claro que com tudo o que me aconteceu me sinto um pouco mais desprendida, mas em mim o desejo de controlar coisas, pessoas e acontecimentos é ainda muito forte.
Eu todos os dias me olho no espelho para ver se nasceu um fio de cabelo novo, fico querendo imaginar o cabelo pintado de outras cores e me pego com um sentimento de saudades de um passado recente.
É loucura, queria tanto que terminasse o tratamento e terminou, agora queria tudo rápido de volta, impossível!!!
Paciência, nada de posar de vítima das circunstâncias, sou uma protagonista, sempre fui e sempre serei. Foi o papel que escolhi para a história da minha vida. sou uma "mocinha" da novela das oito, daquelas que tudo acontece e ela se dá bem, tem o amor da sua vida, filhos lindos, mas passa por alguns percalços até o "felizes para sempre". Claro que todos os dias preciso realimentar o "para sempre" e de alguma forma um pouco dele morre e renasce reinventado.
Hoje não sou mais a mulher que era há um ano atrás, sou em muitos aspectos, muito melhor.
Tenho uma história para contar, de luta, sofrimento e de vitória e tudo porque eu vivi e deixei morrer...

"Mas se este mundo sempre em mutação
No qual vivemos
Faz você se render e chorar
Diga "Viva e deixa morrer" 
Diga "Viva e deixa morrer"
Paul Mc Cartney / Linda Mc Cartney

14 de janeiro de 2011

4.2 DURA DE MATAR

Faz tempo que não escrevo, tenho tido pouco tempo e às vezes pouca vontade.
Hoje estou escrevendo para relatar a minha felicidade por ter comemorado mais um aniversário, ontem fiz 42 anos. Foi uma festa muito legal, a minha casa ficou cheia das pessoas que amo e muito; me senti uma menina, de 1 ano de idade, meu cabelo é de bebê, aliás ...
Na segunda feira desta semana, tive uma crise de identidade e abandonei a peruca, estava cansada dela, me sentia disfarçada, pouco autêntica e isso para mim é o que de pior pode me acontecer. Gosto de me olhar e me reconhecer; a peruca teve seu tempo importante, me ajudou a suportar o que era difícil, mas passou...
É  bem verdade que com o término da quimioterapia, nada termina, eu gostaria muito de voltar a ser quem eu era antes, ter o cabelo de volta como um passe de mágica, e isso é impossível!!!
É preciso paciência, para esperar crescer o cabelo e esperar o corpo voltar ao normal. Mas a graça de sentir-se viva, sentir os cheiros novamente, sentir disposição em realizar tarefas simples que durante o tratamento eu não podia fazer, não tem preço.
Com o ano novo vem a esperança de ter vencido esta batalha, estou em guerra ainda por cinco anos, mas sei que a minha chance é muito grande, porque sou "dura de matar". Dos desafios da minha vida este não foi nem de perto o maior. Tive uma infância problemática, de difteria à meningite, nada faltou no meu histórico de doenças infantis, além de todas as doenças tive um acidente de carro que deixou algumas cicatrizes e um tempo longo de hospitalização e tudo isso quando eu ainda não tinha 7 anos.
Portanto essa guerra é praticamente ganha, uma vez que hoje sou uma mulher madura, com bons recursos internos e com saúde física, sim, apesar do câncer.
Bem volto a festa do meu aniversário e quero dividir com quem me lê, algumas imagens do meu niver...

















23 de dezembro de 2010

NATAL


"Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e começa outra vez ..."

Foi um ano e tanto!
Queremos desejar a todos, os nossos desejos sinceros de um Feliz e abençoado Natal.
Este ano nós celebraremos o renascimento, não só do menino Jesus, mas de uma vida em família com saúde.
Não vamos nos cansar de agradecer a todos que rezaram para que essa doença que invadiu nossa casa fosse vencida.
Com a chegada do menino Jesus nosso coração se enche de alegria e ousa dizer:
"O Senhor fez em nós maravilhas e santo é o seu nome!"
Desejamos que haja Paz no seu coração e no da sua família.
Que haja muito amor também, e principalmente muita saúde!
Que 2011, seja repleto de realizações e que tenhamos a força de vencê-lo no final.

Lu e família

21 de dezembro de 2010

TODO AMOR QUE HOUVER NESTA VIDA!!!


Há dias tenho pensado, como estou me sentindo no final desta etapa, se estou bem, como venci, como passei por tudo, quais eram minhas expectativas, enfim passei me indagando.
Até descobrir que eu já não sou um casulo, a borboleta já nasceu, minha alma já fez este processo de metamorfose, estou pronta desta etapa e isso não significa que outras metamorfoses não virão.
A aprendizagem mais significativa que tive foi que tudo muda o tempo todo, não dá para parar no tempo, não dá para achar que a vida está ganha, é preciso ganhá-la todos os dias, escolher entre viver alimentando a pulsão de vida que há em mim neste momento, nesta hora, neste segundo e alimentar a pulsão de morte.
A quimioterapia terminou, mas as marcas do câncer permanecem e isto pode às vezes alimentar uma certa depressão, pois ainda não tenho cabelos e ainda estou incompleta com a falta de um novo seio.
No verão surgem os desafios de mostrar mais o corpo e não tem como esconder a insegurança de revelar algo: o vazio me incomoda e muito. Não sou hipócrita para dizer que isto não pesa, pesa e muito. Mas sou uma borboleta por dentro e isso é o que mais importa afinal.
Estes dias estávamos rezando o terço e experimentei um estado de contentamento que entendi a expressão: "sorria desde o fígado". Me senti tão inteira, tão plena como jamais havia me sentido antes, mesmo antes da doença. Em outro dia procurava uma roupa para colocar e são poucas as que me caem "muito bem', ainda estou inchada, daí resolvi me vestir com o melhor que tenho: meu sorriso e sei que me senti um sucesso. Descobri que para eu me sentir feliz, preciso na verdade de muito pouco...
Descobri que preciso mesmo é "me sentir", "me ouvir", escutar a minha alma.
Só uma coisa é necessária, descobri  que essa coisa é o amor. Na minha vida, pode me faltar tudo, menos o amor, na família, com os amigos, enfim muitas formas de amor; se eu tiver saúde estou radiante, se eu puder viajar, serei muito feliz, por hora quero só amor, muito amor!!! Todo o amor que houver nesta vida.

14 de dezembro de 2010

O esforço para continuar feminina...


Será que o esforço para continuar feminina é pedir muito?
Deve ser algum pecado mortal, além de vencer o câncer, ter uma vida quase normal.
Hoje quase mandei a dona de uma loja à pqp!
A criatura estava tentando me vender a parte de cima de um biquíni...
Primeiro me fez entender que fazia por medida, entrou na cabine mediu meu tórax, com prótese e sem prótese, depois adentrou o provador muito íntima minha já e começou a me ajudar a experimentar um sutiã, artigo ao qual eu não estava procurando, eu estava de lenço no pescoço e ela achou que era para esconder a prótese, o que não era verdade, pois hoje está mais fresquinho e botei o lenço por charme. Em seguida fez a vendedora vir com vários modelos prontos de biquínis para que eu experimentasse, experimentei e perguntei então se fariam sob medida, ela me disse que não, mas que eu não devia tentar esconder tanto, tinha que aceitar, afinal eu estava com "saúde" e isso era o que importava, para que esconder? Quando perguntei se fariam um forro para inserir a prótese ela me disse: - "não isso tu mesma podes fazer de algodão, um saquinho..".  Saco eu tive que ter e bem grande. Daí inchei no provador, pensei que ia chorar, pois achei de uma falta de sensibilidade, o fato de não ouvir o que eu estava procurando, além disso se não fazem sob medida, para que me medir? Me expor no provador, fazer mostrar o vazio, a cicatriz, para que? Provar os biquínís eu poderia tê-lo feito sozinha, tirei o seio, não o cerébro, não fiquei "retardada", nem com problemas para me movimentar.
Fiquei muito irritada com a situação, aí fui em outra loja, expliquei a situação e a vendedora me disse que fazem sob encomenda, mas que precisam de um modelo, não tiram medidas, foi mais discreta, (embora a gente perceba o choque no rosto, quando expliquei que tinha terminado há pouco a quimio) e combinei que levaria o meu sutiã com espaço para prótese, para ver se é possível. Pelo menos não escutei nenhum comentário ao que eu devo ou não valorizar nesta vida, depois de tudo era só o que me faltava!!!
Discrição é tudo o que queremos neste momento, não queremos nos expor muito.
Quando escrevo o blog, cuido para que a minha exposição não seja exagerada, embora que o meu objetivo é este mesmo, mostrar todas as facetas da doença e do seu tratamento, tudo o que me aconteceu, de bom de ruim e nunca esquecer que "aquilo que não me mata me deixa mais forte". Quem sabe antes desta experiência do câncer, eu não seria esta pessoa também, querendo resolver o problema sob a minha ótica, meu ponto de vista, sem ouvir a necessidade do outro?
Há de tudo nessa vida; "psicólogo de plantão", então nem se fala, tinha acabado de sair da minha terapia, momento  no qual  eu sempre saio mais reflexiva, se eu quisesse a opinião de alguém, eu pediria e não tenho paciência para quem não sabe das minhas dores e se acha no direito de dar palpite.

12 de dezembro de 2010

Vou na direção do sol, um girassol ...

Recebi um vídeo, da minha amiga Cris, sobre o girassol, eu achei lindo, por isso agora me batizo de Girassol.
Ainda sou borboleta, meio confusa, sem saber em qual fase está, mas decidida a mudar de fase.
Isso é o que importa.
Agregar outros adjetivos, ter novos nomes, disso tenho certeza que é o que eu quero: transformação constante...
Tudo é ciclo, tudo começa, termina, recomeça e acaba novamente.
Estou no início do fim, loucura, né?
Nem me fale...
Talvez por isso a confusão, às vezes a revolta, às vezes o sentimento de pura gratidão.
Mas sempre tentando achar o sol...

10 de dezembro de 2010

No novo tempo que eu começo hoje ...

‎"As coisas tristíssimas,vão desaparecer quando soar a trombeta. Levantaremos como deuses, com a beleza das coisas que nunca pecaram, como árvores, como pedras, exatos e dignos de amor." Adélia Prado


9 de dezembro de 2010

BANHO DE MAR


Faz dois dias que os efeitos da quimioterapia, resolveram aparecer.
Fico pregada e o meu rosto está parecendo tipo assim uma "sobrevivente do holocausto".
Fico me cobrando que tenho que levantar, reagir, quem sabe estou "me fazendo?"
Tudo inútil, a droga prega na cama, se a gente esquece ela lembra que é forte e quase nos derruba.
A alegria está em saber que terminou, mais uns dias e estou livre destes inconvenientes.
Restam outros bem mais humanos:
Estou enjoada da peruca, enjoada de me travestir.
Estou exausta, esta é a mais pura verdade.
Terminou o tratamento e junto com o término, vem a exaustão, segurei muita coisa no peito. Agora o peito pede ar puro, novos ares...
Logo vou estar na praia, botando meu pé na areia e sonho ...
Sonho mais do que tudo em tomar um gostoso banho de mar, que leve para bem longe tudo o que passei. quero sentir a força das ondas contra o meu corpo, me animando, me fortalecendo, fazendo eu me sentir viva e renovada.
Que venha logo 2011 e junto com ele eu possa realizar os meus desejos de felicidade.
PS: PARA MARCIA TAVARES:
TUDO PASSA, VOCÊ VAI SUPERAR TAMBÉM!!!

6 de dezembro de 2010

Das coisas que eu construí durante o tratamento - Parte II

Reler a própria história foi muito importante, durante o tratamento, e isso foi proporcionado pelo processo de terapia, sendo ela feita, com a minha terapeuta, ou com meus amigos, família e etc...
Na sexta feira, dia da festa da escola, recebi essa homenagem, que foi linda, em forma de vídeo, junto com a colcha, da qual já falei antes.
Segue o vídeo, que mostra um pouco da minha história e que foi elaborado pelos pais da escola, amigas e meu filho Raphael.
Não precisa dizer que chorei muito, né? Neste dia ofereço este mesmo vídeo ao meu marido, pelo nosso aniversário de casamento, hoje completamos 24 anos de amor, cumplicidade, companheirismo, afeto, desejo de um pelo outro.
Se houveram pedras no caminho? Muitas, acho até que já dá para construir dois castelos.

5 de dezembro de 2010

Das coisas que eu construi durante o tratamento - Shazan


Shazan, foi um jeito que eu e meu marido achamos de não dizer nada, mas de nos apoiarmos, então inventamos essa brincadeira, que é a seguinte: na hora em que eu estava ruim mesmo, me sentindo muito mal, nós encostávamos a nossa aliança de casamento uma na outra e dizíamos ou as vezes só pensávamos "Shazan"; era uma forma de recuperar a força perdida e dizer, tudo bem vai passar, estamos juntos, eu te amo e etc...
Era  apenas um gesto, sem palavras, porque às vezes as palavras não conseguiam ser ditas, não havia voz, nem força para pronunciá-las, então às vezes eu, às vezes ele, buscávamos a aliança um do outro.
Ontem conversamos sobre isso sobre como isso renova a nossa promessa feita um ao outro de estarmos juntos na alegria e na tristeza. De quanto pequenas atitudes alimentam o nosso amor.
Amanhã vamos fazer 24 anos de casados e isso é muito, pois hoje em dia compromisso é palavra fora de moda. Casei quando tinha 17 anos e meu marido 19, loucura total, aprendemos quase tudo juntos, pela dor e pelo amor. E agora durante esse processo todo de tratamento de um câncer, descobrimos novas formas de nos amar e continuar o nosso "compromisso", a nossa intimidade, a nossa cumplicidade, dessas coisas é que é feita uma relação à dois.
Eu agradeço muito ao meu marido, mas confesso que eu não esperava nada diferente, acho que uma relação deve existir para ser boa, eu prometi, ele prometeu, promessas sem amor, não valem nada, mas quando há amor, não há nada que as quebre. Quando há a benção de Deus então nem se fala. Descobrimos o valor do sacramento nas nossas vidas, sacramento que quer dizer:  sinal invisível da graça de Deus.
Deus estava conosco e está em todos as horas as mais felizes e nas menos, mas com a força do sacramento, do nosso "Shazan", ele se sente mais à vontade para agir...
Eu descobri também, que o fato de hoje estar proclamando todo o nosso amor, não impede que mais tarde ele acabe, mas eu não tenho mais medo de dizer que ele é infinito e pode durar para sempre.
É um projeto de vida, continuar amando, precisa todos os dias de planejamento e ação, para que de fato seja infinito, ao menos enquanto dure.
No meu caso, sonho que dure para sempre!
Shazan!

4 de dezembro de 2010

Colcha da Amizade

Ontem pude participar da festa de encerramento da escola e ganhei uma colcha linda, com desenhos dos meus 75 alunos. Em breve colocarei a foto aqui, ela já está na minha cama, me enchendo de energias positivas.
Foi uma homenagem linda que ganhei.
Pensando bem no meu ano, ganhei mais que perdi, mesmo com todas as "travessias desse ano".
Recebi tanto amor!!!!!!!!!!!!!!!!!
"obrigadu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"
A partir de agora viverei como a Canção de Sempre do meu querido Mario Quintana:


Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mário Quintana

2 de dezembro de 2010

Papo cabeça ...



Citação linda de :
"Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão...
Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que,
de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar.
E quando vi meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene.
Era o espírito da gravidade. ele é que faz cair todas as coisas.
Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim a correr.
Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo, agora vejo por baixo de mim mesmo,
agora um Deus dança em mim!"
Que assim seja!

GRATIDÃO

Encerrou uma etapa da minha vida da qual quero me lembrar só das coisas boas.
O tratamento quimioterápico, teve fim e eu o venci. 
Foi uma batalha e tanto, são sintomas dificílimos de explicar mas só quem já os sentiu pode entender o que se passa dentro de nós.
Também digo que há um risco grande de morte, uma vez que ele mata algumas coisas dentro de nós. 
Há morte e ressurreição em cada ciclo de quimioterapia.
Tem gente que não aguenta, eu me orgulho de ter aguentado, de ter suportado.
Suportei sempre com tranqulidade e fé e porque sabia que Deus estava ao meu lado, me cuidando, me segurando no colo.
Suportei também pela minha rede de apoio:







Agradeço minha família, meus amigos e toda a equipe da Oncotrata; especialmente a Dra Ana Paula, que me passou uma segurança e tranquilidade incríveis, depois a Dra Andrea, que cuidou de mim durante a quimio; e as duas serão minhas companheiras por muito tempo ainda, pois o meu tratamento é para o resto da vida.
As enfermeiras Debora e Claudia, que foram incansáveis, pois puncionar minha veia era uma tarefa "árdua".
Agradeço a Alessandra, assistente social, sempre sorridente  e encorajadora, igualmente agradeço a Vanessa da recepção, a Rosane da administração, enfim todas essas mulheres maravilhosas que estiveram comigo, neste tempo e que fazem parte desta família ONCOTRATA.
À minha comadre Magali e ao meu amado marido que me acompanharam, antes durante e depois, toda a minha gratidão.
Teve muito aprendizado e de novo, mais uma vez, cito Adélia Prado:
"Dor não tem nada haver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade."

1 de dezembro de 2010

Renova-me



Postei este vídeo como forma de agradecimento e pelo sentimento de me sentir renovada, estou muito feliz com o fim de uma etapa difícil da minha vida que venci graças a Deus e a uma enorme rede de apoio.
Vou fazer meus agredecimentos especiais em breve.
Sei que não é o fim da luta, porque temos que os cuidar diariamente para mantermos nossa saúde, mas no meu caso, me sinto renovada e curada.
A renovação é permanente, é projeto, nunca está acabada.
Todos os dias eu preciso renovar a minha vontade de ser uma pessoa melhor, mais feliz, mais de acordo com minhas vontades e desejos.
Obrigado!!!!!!!!!!!!!!!!

29 de novembro de 2010

Guerreira

Eis a oração de São Jorge, hoje pela manhã a primeira imagem que vi foi a de São Jorge em um adesivo de carro, passei em seguida por outro carro e lá estava a oração.
Fui fazer o exame que me dirá se amanhã farei a última quimioterapia.
Tenho me sentido uma guerreira, sem falsa modéstia e São Jorge tem me ajudado neste sentido, estou nesta batalha pela minha vida, não só por essa, mas pela vida plena que um dia há de vir.
Tenho muito ainda a realizar nesta vida e minha vontade de viver é muito grande, por isso recorro as palavras de São Jorge.

28 de novembro de 2010

Vou Deixar - Skank.wmv

Reviver para continuar vivendo


Comecei novamente a reler o blog e um sentimento muito forte, toma conta de mim. estou próxima da minha última quimioterapia, estou perto de um novo recomeço, uma nova rotina. Com o tratamento a rotina se altera, tenho um foco claro, preciso ficar curada. Finalizado o tratamento preciso sair do casulo e transformar essa experiência pela ótica do amor.
Não quero esquecer por isso registrei.
Registrei para aprender, se esquecer tenho onde consultar.
Registrei para me proteger de levar uma vida corrida e esquecer que em primeiro lugar devo me cuidar e em seguida poderei e estarei apta a cuidar dos outros.
Registrei por amor ao meu marido e filhos, eles foram meus pilares de sustentação, foram quem me ajudaram a lutar acreditando que "tudo vale a pena se a alma não é pequena"...
Registrei para animar outras mulheres que passam pela mesma situação.
Registrei para que possa lembrar as minhas derrotas, mas principalmente para não esquecer as minhas vitórias.
O sofrimento foi grande, mas não foi tudo.
Teve sobretudo muito aprendizado, muito auto conhecimento, muita intimidade comigo mesma.
Registrei e partilhei o que era íntimo, mas nem tanto, guardei  o melhor e o pior só para mim, aquilo de mais íntimo, do qual não abro mão de ser secreto.
Registrei a minha fé neste Deus que é puro amor e acolhimento, me sinto assim deitada no colo de Deus.
Hoje o sentimento é de plenitude, ontem era de revolta.
Assim tem sido a minha vida: uma montanha russa, vivo de altos e baixos.
Estou ansiosa pelo fim desta etapa da minha vida, mas como já vi, não sou eu quem decido, devo deixar para trás todo este sentimento de onipotência.
Meu lema será: "Vou deixar a vida me levar..."
Vou esperar que as gaivotas cheguem até mim e não forçar nada, tudo é graça, tudo é dom, tudo tem um propósito maior.

26 de novembro de 2010

CONVITE DA ESCOLA





O CONVITE ACIMA SERÁ DA NOSSA FESTA DE ENCERRAMENTO DA ESCOLA, NA PRÓXIMA SEXTA FEIRA DIA 03 DE DEZEMBRO.
ESPERO ESTAR BEM PARA CONDUZIR A ADAPTAÇÃO DA HISTÓRIA DE RUTH ROCHA QUE FALA DA FORÇA DO AMOR E DA UNIÃO ENTRE AS PESSOAS.

25 de novembro de 2010

ESPERAR UM POUCO MAIS ...


Sem dúvida nenhuma, meu aprendizado nesta situação em que eu estou vivendo é "esperar enquanto Deus trabalha."
Nenhum plano, nada a planejar sozinha sem o consentimento médico.
Não consigo assumir um compromisso profissional. Fico na expectativa de que já vai passar e eu vou voltar, mas na verdade, nada me pertence, nada consigo decidir neste momento.
Estou tentando lidar com aquilo que é inesperado, com a minha impotência diante do que estou vivendo.
Para mim que sou decidida e gosto de planejar a minha vida tem sido um aprendizado e tanto.
Estou frustrada, mas sei que vai passar.
São só cinco dias a mais, mas são cinco dias que fazem uma diferença enorme pois os compromissos do final do ano, não podem ser remarcados.
A questão é que os eventos terão que talvez acontecer sem a minha presença e não é que eu me ache insubstituível, é que realmente eu gosto muito de participar e organizar tais momentos.
Por hora meu único compromisso é esperar, esperar e repousar.

Cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima.


Se Deus quiser amanhã farei a última quimioterapia!!!
Será a segunda batalha vencida do tratamento.
Conto com as orações de todos os meus amigos e da minha família.
Estou bastante ansiosa e não consigo rezar, quero somente entregar ao Senhor o meu destino.
A frase acima é do evangelho de hoje.
Obrigada meu Deus!!!

22 de novembro de 2010

Let it be


Assistindo o show do Paul, achei que essa música tem tudo a ver comigo:
Let it be
Deixa Estar The Beatles  
Quando eu me encontro em momentos difíceis
Mãe Maria vem para mim
Falando palavras de sabedoria, deixa estar

E nas minhas horas de escuridão
Ela está em pé bem na minha frente
Falando palavras de sabedoria, deixa estar.

Deixa estar, deixa estar.
Sussurrando palavras de sabedoria, deixa estar.

E quando as pessoas de coração partido
Morando no mundo concordarem,
Haverá uma resposta, deixa estar.

Pois embora possam estar separados há
Ainda uma chance que eles verão
Haverá uma resposta, deixa estar.

Deixa estar, deixa estar, yeah.
Haverá uma resposta, deixa estar.

Deixa estar, deixa estar, yeah.
Sussurrando palavras de sabedoria, deixa estar.

Deixa estar, deixa estar, yeah.
Sussurrando palavras de sabedoria, deixa estar.

E quando a noite está nublada,
Há ainda uma luz que brilha em mim,
Brilha até amanhã, deixa estar.

Eu acordo ao som da música
Mãe Maria vem para mim
Falando palavras de sabedoria, deixa estar.

Deixa Estar, deixa estar.
Haverá uma resposta, deixa estar.
Deixa estar, deixa estar.
Sussurrando palavras de sabedoria, deixa estar


Deixa estar, tudo vai passar e quando olhar para trás verei que Maria esteve sempre comigo e eu como mãe quero estar sempre ao lado de meus filhos!!!


21 de novembro de 2010

Eu acredito no poder do amor...


Hoje fui dar uma palestra, junto com meu marido sobre Harmonia Conjugal e Paternidade e Maternidade responsável para noivos que buscam se casar na Igreja e mexeu muito comigo falar olho no olho deste meu momento. Guardei meu testemunho para o final, afinal a palestra tem um conteúdo que precisa ser passado, precisamos alertar o quão é importante a tarefa de gerar filhos e de amá-los.
Achei que conseguiria falar sem chorar, que conseguiria até o final.
Mas não deu, chorei no momento que iniciei a fala da minha situação, chorei porque quis agradecer de novo ao Marcelo por me amar incondicionalmente, por me ensinar que o amor de Deus é possível, chorei pela minha própria dor, que não é pequena nem grande demais, mas afinal está lá sempre me espetando.
Mas no final passamos a mensagem que quando há amor, tudo se resolve, tudo passa, ou vai passar.
Estou em contagem regressiva para a última quimioterapia e sei que muito sofrimento já é coisa do passado, outros virão, faz parte da vida, mas encaro com o meu bom humor de quase sempre.
Ao final da palestra colocamos a música Só hoje do Jota Quest, que já está aqui no blog (postagens antigas), porque em muitos momentos do meu tratamento, eu pedi para o Marcelo vir para casa, porque eu estava precisando ouvir uma palavra dele, para que eu pudesse sentir a alegria de estar junto dele e poder sentir a alegria de estar viva. Nestes dias a gente brincava que eu estava precisando de amor terapia, fazendo um trocadilho com a quimioterapia.
No fim de tudo fica a sensação de ajudar as pessoas a amar mais e melhor; precisamos neste mundo de muito mais amor do que damos, é preciso por amor gritar bem alto, que a vida pode ser feliz, que há felicidade quando se tem fé, qualquer fé, a minha é em Jesus Cristo e é por ele que grito:
Eu acredito no poder do amor!!!

19 de novembro de 2010

EU SONHO EM SER ÁGUIA UM DIA ...



RECEBI UM E-MAIL COM ESSA HISTÓRIA E FIQUEI DESEJANDO SER UM POUCO ÁGUIA, NA VERDADE JÁ ULTRAPASSEI ALGUMAS TORMENTAS, JÁ PERDI ALGUMAS COISAS NO CAMINHO, TENHO MUITA FÉ, MAS AINDA ME FALTA UMA CONFIANÇA MAIOR. TENHO AINDA MEDOS, MAS PROCURO NÃO PENSAR NELES, PENSO NAS MINHAS "CORAGENS", 
SEGUE O TEXTO:


ALGUMA VEZ JÁ PENSOU AONDE VÃO AS ÁGUIAS QUANDO A TORMENTA VEM?

Onde é que elas se escondem? Elas não se escondem.
Abrem suas asas que podem voar a uma velocidade de até 90km/h, e enfrentam a tormenta. Elas sabem que as nuvens escuras, a tempestade e os choques elétricos podem ter uma extensão de 30 a 50m, mas lá em cima brilha o sol.
Nessa luta terrível podem perder penas, podem se ferir, mas não temem e seguem em frente.
Depois, enquanto todo mundo fica às escuras embaixo, elas voam vitoriosas e em paz, lá em cima.
Finalmente, as águias também morrem, mas alguma vez você achou por aí um cadáver de águia?
De galinha talvez, de cachorro ou de pombo, quem sabe até de um bicho de mato nessa extensas estradas de reserva ecológica, mas cadáver de águia você não encontra.
Sabe por quê?
Porque quando elas sentem que chegou a hora de partir, não se lamentam nem ficam com medo.
Procuram com seus olhos o pico mais alto, tiram as últimas forças de seu cansado corpo e voam aos picos inatingíveis e aí esperam resignadamente o momento final.
Até para morrer elas são extraordinárias.
Talvez por isso o profeta Isaías compara os que confiam no Senhor com águias.
Quem sabe hoje você tem diante de si um dia cheio de desafios.
Alguns deles podem parecer impossíveis de ser vencidos, mas lembre-se:
descanse no Senhor, passe o tempo com Ele e depois parta para a luta, sabendo que depois daquela tormenta brilha o sol.
"Mas os que esperam no Senhor, renovam as suas forças."

12 de novembro de 2010

Um céu azul da cor do mar


Fiquei pensando no que escrevi no último post, nesta questão de ser a minha história unica, desde  a maneira como estou vivendo até a forma como estou sentindo tudo que está a minha volta. Vejo que por mais que partilhe com outras pessoas este momento e me sinta ouvida, cuidada, amparada, tudo isso tem um "que" de solidão. É uma dor só, digo solitária, por mais que seja dividida, nem tudo que penso, falo e muito que sinto, não expresso, porque tenho o entendimento de que poucos poderiam compreender.
Recebi um e-mail de um amigo meu, que passou por situação bem pior, mas semelhante, no sentido de nos depararmos com a possibilidade de ver a nossa vida finita. Ter essa consciência, como venho repetindo também, é algo que muda o foco da nossa vida, algumas coisas desnecessárias vão morrendo em nós e isso é a parte boa da doença e do seu tratamento. Eu me tornei mais tolerante, me preocupo com o que vale a pena, deixo de lado disputas de poder, ou de qualquer outro tipo, não quero provar mais nada para ninguém. Acredito que antes do câncer eu vivia buscando a aprovação do que eu pensava, de como vivia, do que fazia, agora isso tem uma importância bem menor, me preocupo com aquilo que me dá prazer, que me deixa bem, com bons pensamentos, me afastei de quem tem sempre uma tragédia para contar, ou que maximiza seus sofrimentos.
Gosto de me cercar de pessoas generosas que procuram deixar meus dias melhores.
Meu lema do momento é minimizar o que há de ruim e maximizar o que há de bom, escolher a melhor parte.
Com essa atitude às vezes pode parecer que há uma solidão maior, porque vivemos em um mundo pessimista, em que o que dá Ibope é o sofrimento. Ainda me dizia meu amigo: "nós que escolhemos não ser vítimas", essa escolha, pode acreditar é uma escolha quase revolucionária, em um mundo onde as pequenas coisas do dia a dia são um grande problema. Não ser vítima, não significa, não sofrer, significa encarar o sofrimento nos olhos e com os olhos bem abertos, vivendo cada gota dele, não recorrer a nenhuma ilusão, tentar se manter com os pés na realidade dos fatos, não devanear muito, ainda que um pouco de devaneio, seja importante para suportar. Significa também entender a solidão do sofrimento, entender que isso faz parte do processo que eu estou vivendo de forma só minha.
No fim saberei que vivi de fato e isso me tornará melhor. É como se Deus estivesse lapidando meu coração para ser mais generoso, mais humano, mais amoroso. É disso que vem o meu conforto, há quem encontre esse conforto em outros lugares, o meu vem em grande parte da minha espiritualidade e da forma como eu a vivo, vem também das pessoas que me rodeiam e a cada dia me ensinam uma maneira nova de encarar esse "furacão".
Uma amiga minha me falando de um filme que conta uma história parecida com a minha, me disse o seguinte: que uma personagem em um dado momento, disse que somos como o céu: aparecem as nuvens, as tempestades, os raios, os ventos, mas o céu permanece igual. Fiquei pensando nisso ... Quem já andou de avião sabe que a tempestade está nas baixas altitudes, basta o avião se elevar e teremos um céu límpido, impassível.
Quem dera essa analogia seja verdadeira, e que tudo isso esteja muito abaixo de mim e que passada a tempestade eu possa mostrar todo o meu azul, um azul da cor do mar...

9 de novembro de 2010

Fragmentos de eternidade


Tudo isso que eu tenho vivido, tem sido registrado, tanto na minha memória, quanto no meu corpo, pelas marcas que deixaram e pelas minhas mãos. 
Além do blog, tenho um caderno de anotações um quase diário, não o é, porque não escrevo todos os dias. 
Há coisas só possíveis de dizer a si mesma.
Tudo isso são meus "registros de verdade", expressão usada pela minha amiga Fernanda, para descrever o que eu estou fazendo. 
Registrar para esquecer ou para lembrar? Me pergunto...
Não sei ainda, de um lado, eu penso no dia, que chegará logo, em que tudo o que estou vivendo não passará de algo bem distante e que não me afetará mais.
De outro, penso, que não esquecendo eu valorizaria mais a minha vida, perderia menos tempo com futilidades, já que a iminência de desaparecer muda bastante o foco de qualquer vida, eu acho...
Já me arrisco a duvidar, a achar, a não ter uma plena certeza em tudo, não há um só caminho, mas cabe a mim escolher um, se não escolho, serei escolhida.
Hoje escolho novamente o caminho que me faz bem, primeiro me olhar me reconhecer e depois me oferecer como ajuda, como meio de felicidade para quem comigo está.
Ao término de tudo, terei fragmentos da minha vida...
Fragmentos de dores...,de perdas..., de ganhos..., de amor...,de amparo e desamparo, de lágrimas , de risos, de fugas e de encontros.
Um dia poderei tentar montar esse grande quebra cabeça, que se tornou a minha vida e  talvez enxergue ele totalmente montado, preenchido e neste dia talvez eu compreenda o porque de cada peça, de cada encaixe, e finalmente entenda a razão de tudo que vivi.
É uma possibilidade ...
Por enquanto sigo juntando esses fragmentos que são de eternidade, fazem parte de uma história de vida única e que não se repetirá.

8 de novembro de 2010

Chegou a fadiga ...



Achei, sinceramente, que ela não viria desta vez.
 Passei muito bem, na última sessão, mas desde ontem à tarde ela veio me fazer companhia; a tal da fadiga.
O enjoo também veio, mas para ele há remédio.
Por isso só peço, para passar essa moleza e ficar bem.
Logo passa, mais um dia dois no máximo.
Me valho então da poesia, achei esta de um poeta português, que explica meu momento:

Fadiga

Aquela cabeça perdida que faz
O toque entorpecido de todos os dedos

A voz presa no cortiço de uma língua
Joelhos prostrados a invalidez do sentado
Olhos que so se mostram na sua mingua

Pés de gente feitos em pés de vento
Corpo renasce!Pensa!Que vida é alento!
Eduardo Franco

4 de novembro de 2010

Estou a dois passos do paraíso...


Tenho chorado muito todos sabem, mais de tristeza do que de alegria, nos últimos tempos.
Mas hoje chorei de muita felicidade: "Estou a dois passos do paraíso...E o meu amor vai me buscar..."
Amanhã faço a penúltima quimioterapia e parei para pensar que eu não acredito que passei por isso tudo, essa revolução que foi a minha vida nos últimos meses.
Experimentei todos os sentimentos do almanaque: sentimentos, novos, antigos, tudo que vocês possam imaginar eu vivi, ou quase tudo, uma vez que sou exagerada...
Mas agora me vem isso: está no fim. Me sinto há duas voltas do pódio, em uma corrida de Fórmula 1, sou quase um Fernando Alonso, um Schumacher, sei lá, faltam duas voltas é uma questão de minutos se levarmos em conta tempo e espaço... Estou hoje com o combustível todo, nem sei quem está vencendo a Fórmula 1, mas me sinto competindo, correndo nesta competição em favor da minha vida.
Quem será que dará a bandeirada final?
Terminada essa corrida, outras virão, mas se venci esta, sairei fortalecida para competir nas outras que virão, terei mais prática, serei uma campeã!!!
Vitória é um sentimento que tem uma importância extra para mim agora, vitória porque continuo viva, continuo sentindo tudo e todos.
Continuo enfim minha existência...
Até quando?
Ninguém sabe, só Deus...
PS: Descubro agora, porque procurei no Google que é o Alonso que tem chance de ganhar o título, e ele diz, que é necessário também sorte para vencer. Acredito que sorte é sinônimo de fé, determinação, vontade de vencer... Temos muito em comum!

3 de novembro de 2010

Quando o amor cuida da gente ...


Esses dias escrevi sobre o amor e apoio dos meus filhos.
Hoje escrevo sobre o quanto o amor que me une ao Marcelo, meu marido, tem me curado aos poucos...
Não sei explicar o que sinto por esse homem, às vezes é tão forte o meu amor por ele que chega a doer.
Neste ano, ele tem sido para mim, meu pai, minha mãe, meu amigo, meu amor, meu amante, meu tudo.
E isto que eu tenho feito muito pouco para corresponder...
Se tenho que perder a paciência é nele que descarrego...
Se tenho que chorar convulsivamente, é ele que me dá o ombro...
Se quero mesmo tirar o dia para incomodar, é ele que escolho para o alvo.
Se eu estou insegura diante da minha aparência, ele me diz que nunca me desejou tanto.
Se quero tudo, ao mesmo tempo e digo que ele não consegue me atender ele me pede desculpas e tenta de novo agradar...
Não devia estar fazendo uma propaganda tão escancarada, pois esse homem é "precioso" demais, vai que alguém resolva me roubar? Fico louca só com a mínima possibilidade de isso acontecer e enlouqueço ele também, kkkkk.
Como ele lida com tudo isso? Muitas vezes de forma paciente, em outras de forma mais louca que a minha e na maioria das vezes me enfiando para dentro da casinha de novo, para que eu recobre o juízo.
Mas o que de mais importante ele faz por mim, não é nada de tão extraordinário, não são presentes caros, nem flores toda a semana (embora que isso seria bem vindo hehehehe...), ele simplesmente fica comigo. Ele é presença, às vezes silenciosa, às vezes ruidosa... Mas sempre junto é o lema dele, acho eu.
Sabe quando tudo começou, achei que ele não iria suportar esse sofrimento; assim como achei que eu iria ter mais crises, porém o nosso amor tem nos abastecido e muito.
Quando deitamos e olhamos um para outro e fazemos a nossa oração, tenho certeza que o nosso desejo é único: que isso tudo passe e vai passar.
Devo a ele muitos pedidos de perdão por bobagens que digo, afinal ele é o meu Brad ...
A sua essência é o modo brincalhão com que ele está  enfrentando tudo e tudo não é pouco.
Ele me diz que "o bom cabrito não berra", sou capricorniana e entendo bem isso, mas ele é um touro e precisa se transformar em cabrito para dar conta do recado, também não deixa de ser uma linda metamorfose.
Tem várias músicas do Jota Quest, que são a trilha sonora dos nossos momentos de amor, mas tem uma que já postei no blog e que em uma parte diz o seguinte:
"...Se isso não é amor o que mais pode ser?"
Esse recado é para ti meu amor: Eu te amo Marcelo, muito mesmo e te agradeço por tornar a minha vida mais leve, mais bem humorada e quando vejo o nosso amor, entendo que o amor que nos une é algo grandioso, porque Deus está presente, com certeza em todos os momentos, alegres ou tristes, pois não somos infelizes. Há tristeza na felicidade, assim como há alegria. Nossos momentos ruins passarão e vamos ainda realizar todos os sonhos que temos.
Obrigada por me amar neste momento, que não é tão glamouroso, nem tão fácil de expressar, obrigada por me ensinar com o teu amor o amor que Deus tem por mim.

Cuidar, Sorrir, Respeitar, Amar, Assumir


Olá terminou outubro e eu sigo tentando conjugar os verbos mais importantes para desenvolver o auto cuidado.
Começo então com cuidar, quase um lema de vida, para quem de certa forma, sempre foi uma cuidadora: mãe, tia, dinda, educadora, filha, neta, diretora, todas essas situações me colocam em situações de cuidado que executo mesmo agora quando sou eu a primeira que precisa ser cuidada. Acho esse aprendizado fantástico: perceber que para poder cuidar bem de outros, preciso primeiro cuidar de mim. Descobri o que significa: " amar ao próximo como a ti mesma", é precisa amar-se, para amar com qualidade.
Para sempre me cuidarei para cuidar de mim, engraçado, né?
Sorrir é o que eu mais faço, mesmo em situações limite, nunca deixei de sorrir, faz parte da minha decisão de ser feliz apesar das circunstâncias. Sorrir até da própria desgraça, deixa a vida mais leve, deixa a desgraça, quase com graça.
Respeitar o tempo, respeitar o tempo do meu corpo, mesmo agora que eu preciso de 28 dias ao invés de 21; respeitar e aceitar os próprios limites. Respeitar a vida que pulsa em mim. Respeitar quem me rodeia, não usando a doença para se achar no direito de  desrespeitar. Na verdade não usar nada, nem mesmo a morte, para causar o que quer que seja no outro: culpa, remorso, isso pode ser muito cruel. Sei que tenho conseguido respeitar a minha doença, e não fazer dela nenhum "troféu", por mais que isso às vezes possa me tentar. A maioria das pessoas adora consolar uma vítima e eu escolhi dentro desta situação, ser protagonista, mesmo que isso em alguns momentos me deixe solitária.
Espero misericórdia, somente isso, respeito pelo momento em que estou vivendo, respeito e reciprocidade.
Amar tudo que me acontece, do mais difícil ao mais maravilhoso momento, esse é o meu lema, nem sempre consigo, às vezes quero chutar o balde, fugir para bem longe, mandar uma meia dúzia para bem longe...
Daí me lembro que não é isso que Deus espera de mim e que nenhum orgulho paga o momento final que será somente entre mim e ELE. Quero ser reconhecida como uma boa filha neste mundo tão vil em que vivemos. Será que é utopia? Pretensão? Ilusão? Não sei, mas a consciência de viver de acordo com o que eu acredito, com a verdade que escolhi para minha vida, é coisa mais importante do momento.
Amar também cada vez mais minha família: meu marido, meus filhos, meus pais, minha vó,  meus amigos, dar e receber muito amor!
A partir desse amor, assumir um compromisso comigo mesma de me cuidar, de sorrir, de respeitar e de amar até  quando Deus me permitir viver; viver de forma muito intensa, sem aceitar mediocridades, viver uma vida que valha apena ser vivida, que valha a pena ser lembrada, que valha a pena ser eterna.
Eu assumo o compromisso e assino embaixo, com o aval de Deus, porque sem ele, sei que nada posso, ou posso muito pouco.

GISELE

                                                                                                                                         ...